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Lee Byong-chul 25 de Agosto de 2010 às 12:44

O Querido Líder limpa a casa para o Jovem General

Houve um tempo, não muito depois do fim da Guerra Fria, em que todas as pessoas presumiam que a Coreia do Norte iria colapsar.

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Em 1994, a morte repentina de Kim Il-sung, o fundador da experiência tirânica e economicamente desastrosa da Coreia do Norte, reforçou essa ideia. Mas isso era a opinião naquela época.

Hoje em dia, ninguém pode dizer, com alguma credibilidade, que o regime dinástico do país, agora comandado pelo “Querido Líder” Kim Jong-il, filho do último “Querido Líder” Kim Il-sung, venha a cair. A insistência de que o fim da dinastia Kim se aproximava do fim está a dar lugar ao consenso em torno da continuação daquele regime.

Imediatamente depois do ataque cardíaco que matou o seu pai numa estância turística de Verão numa remota montanha, Kim Jong-il consolidou o poder político ao concentrá-lo nas mãos de um número muito reduzido de leais incansáveis. E também ao prender, torturar e matar qualquer pessoa que fosse vista como um oponente político.

Independentemente disso, apesar do longo mandato, o poder de “Querido Líder” tem sido ameaçado, por algumas vezes, por um pequeno grupo de dissidentes. E agora que a sua frágil saúde o obrigou a preparar a passagem de testemunho ao seu terceiro e mais novo filho, Kim Jong-un (o chamado “Jovem General”), a oposição tornou-se mais visível.

A 22 de Abril de 2004, uma explosão num comboio em Ryongchon matou 160 pessoas e feriu 1.300. Muitos acreditam que foi uma tentativa de assassinar Kim, cujo comboio, feito ao seu gosto pessoal, tinha passado por aquela estação algumas horas antes do incidente.

Desde então, as instituições de informação da Coreia do Sul têm avaliado a capacidade de Kim Jong-il de organizar uma sucessão dinástica sem problemas. Em particular, têm estado a tomar atenção à contagem de altos responsáveis norte-coreanos que, de repente, se reformaram, desapareceram ou que morreram em acidentes de automóvel.

De facto, o número de alterações na hierarquia da Coreia do Norte indica uma forte oposição interna à continuidade do poder ilegítimo de Kim. Em Maio, o vice-ministro das Forças Armadas, o almirante Kim Il-chol, de 80 anos, foi deposto e enviado para a reforma supostamente devido à idade avançada, mas há ainda figuras mais velhas na gerontocracia da Coreia do Norte.

A acrescentar a isso, Pak Nam-gi, o experiente ministro das Finanças, oficialmente considerado o responsável pela emissão mal sucedida de uma nova moeda no último ano, desapareceu. O primeiro-ministro da nação, Kim Yong-il, foi demitido a 7 de Junho. Por sua vez, Ri Je-gang, um alto dirigente do Partido dos Trabalhadores, morreu num estranho acidente de carro a 2 de Junho.

A explicação mais comum para todas estas mudanças é a de que Kim está a cerrar fileiras à sua volta e à do “Jovem General”. É preciso um plano de sucessão disciplinado já que Kim está com 68 anos e não está de boa saúde (razão pela qual é pouco provável que esteja no poder em 2012, o ano que definiu para que a Coreia do Norte se torne num “País Forte e Próspero”).

Entretanto, as forças armadas parecem manter lealdade a Kim, estando dispostas a executar as suas ordens, mesmo com o risco de levar o país a uma guerra, como afundar o navio de marinha sul coreano Cheonan, em Março, ou como ameaçar com a “poderosa dissuasão nuclear” contra os exercícios militares conjuntos da Coreia do Sul e dos EUA.

Ao mesmo tempo que o Conselho de Segurança das Nações Unidas debate as formas de reprimir a Coreia do Norte pelo ataque ao Cheonan, poucas pessoas na Coreia do Sul acreditam que qualquer punição irá dissuadir Kim ou encurtar a vida do seu regime. Além do mais, desde o início das diligências que a Coreia do Sul não crê que as Nações Unidas cheguem a actuar, devido ao veto da China no Conselho de Segurança. De facto, a China lançou uma ameaça velada ao país ao avisar que “não devia fazer uma tempestade num copo de água”, referindo que a morte acidental de 46 marinheiros sul coreanos era uma questão insignificante e não iria, certamente, levar a China a repensar a sua aliança com os norte-coreanos.

A imprevisibilidade da Coreia do Norte e a cínica irresponsabilidade da China parecem estar a encurralar o governo conservador do presidente sul coreano, Lee Myung-bak. Lee precisa não apenas de calcular quão forte vai ser a resposta ao país vizinho pela morte dos marinheiros do Cheonan, mas também encontrar uma maneira de continuar a trabalhar com o estado policial de Kim Jong-il. O mais provável é que opte por um recuo estratégico no confronto. Em vez de forçar sanções rigorosas das Nações Unidas, o governo de Lee irá, provavelmente, focar-se na recuperação das conversações dos seis países com uma posição no fim do programa de armamento nuclear da vizinha do Norte (Coreias do Sul e do Norte, EUA, China, Japão e Rússia).

Não há nenhuma forma de saber o que vai acontecer na Coreia do Norte quando Kim morrer. Mas é tempo de as potências asiáticas começarem a pensar de uma maneira criativa e de começarem a agir em cooperação para impedirem uma implosão de violência. Por agora, a Coreia do Sul precisa de confiar numa corajosa tolerância nas suas relações com o Norte, já que simplesmente não tem outra opção viável pela frente.


Lee Byong-chul é um alto membro do Instituto para a Paz e Cooperação em Seoul, na Coreia do Sul.


Copyright: Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org







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