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Mário Negreiros 10 de Julho de 2007 às 13:59

O rasto inevitável do que somos

Pelo que pude perceber, o concurso das novas Sete Maravilhas está para os monumentos do mundo como os concursos de Miss Universo estão para a beleza feminina e o Festival da Eurovisão para a música. Pimba e de legitimidade muito discutível. Mas, vá lá, o

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Mas, vá lá, o povo gosta e sempre aprende alguma coisa sobre o que a humanidade espalhou por aí para afirmar a sua própria excelência. Preocupado fiquei quando soube que parte do dinheiro arrecadado vai ser aplicada no restauro dos budas de Bamian, no Afeganistão.

Preocupado porque, a julgar pela estética que dominou o concurso, os budas destruídos pelos talibãs em 1999 arriscam-se a ser reconstruídos em fibra de vidro e iluminados por néon. E mesmo que conseguissem refazer a pedra de que eram feitos, haveria a perda de um outro monumento, mais vigoroso no que diz do que foram os budas de Bamian em toda a sua longa existência. Refiro-me aos buracos deixados no lugar dos budas. Nem os escombros das torres gémeas de NY, com todo o seu sangue, são capazes de dizer mais do obscurantismo fundamentalista islâmico. Não estou a falar da brutalidade de um e de outro gesto, mas da clareza do que dizem. E a destruição dos budas de Bamian é ainda mais claramente expressiva da cegueira fundamentalista do que o 11 de Setembro.

Reconstruir os budas de Bamian (com ou sem fibra de vidro, com ou sem neon) é destruir a imagem mais emblemática de um fenómeno incrivelmente destrutivo e violento (em que se insere o próprio 11 de Setembro), que infligiu sofrimento a toda a humanidade. É, com a melhor das intenções (dessas de que o Inferno está cheio), apagar história - tal como fizeram os que os destruiram. Os buracos deixados no lugar dos budas são a história, tal como os budas eram história, antes que a história os destruísse.

Há, porém, uma falha grave na minha argumentação: por que cargas d’água deixaria de ser história a reconstrução dos budas de Bamian, com dinheiros do concurso das novas Sete Maravilhas do Mundo? Também isso é história, também as tentativas de apagar a história dão testemunho do que somos e, portanto, são, elas próprias, história. Não há como evitar, deixamos sempre rasto.

E pronto, eis-me, levado pelo meu próprio fluxo divagativo, a concluir no sentido oposto ao que planeara (não é a primeira vez que me acontece): se é para usar o dinheiro do concurso das novas Sete Maravilhas do Mundo para reconstruir os budas de Bamian, que seja como deve ser, com muita fibra de vidro, montes de neons, tudo a brilhar como num ecrã de televisão.
 
PS: Cada carro que vejo estacionado em cima do passeio é um monumento. Testemunha o grau de civismo, de respeito e de cuidado dedicados pelos cidadãos contemporâneos portugueses a essa figura distante, muito distante, a que (só pode ser ironia) chamamos de “o próximo”.

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