Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
António Mateus antoniomateus@hotmail.com 28 de Março de 2006 às 13:59

O salto mortal

Rolando apertava a pilha de notas, com o baraço desconcertado de uma corda de sisal. Basílio ia acompanhando o movimento lento, pausado, certamente mais valioso, pensava ele, do que o montante impresso naqueles papéis desgastados. Nauseabundos.

  • Partilhar artigo
  • ...

A paciência, esse bem imperioso, para se sobreviver naqueles azimutes, ameaçava sair porta fora mas ele, empresário candidato ao  sucesso, não se podia dar ao luxo de tal arejo, e assim a segurou ali mesmo. Pelas pontas dos colarinhos.

África, Angola, Moçambique, Guinés, São Tomés e Cabos mais castanhos do que verdes. Novos oásis-esperança, das janelas que nos minguam noutras partes.

Pelo menos para quem as vê ou o consegue fazer. Ou estomagar essa pena de carregar o duplo apodo de colono, sendo branco e, ainda por cima, tuga, em terra destinada a pigmento mais apertado.

Basílio é daqueles que já nasceu do lado de cá do 25 de Abril. E da África, lusófona, ou de outras fonias, conhecia apenas as faladuras de espaço - mental e físico - que por aquelas terras abundaria, em trajecto oposto ao seu rectângulo natal.

Durante uns anos ainda escribou em negócio alheio, suando dedicações e competências. Devoção à hierarquia, honra feita palavra. Mas depressa se descobriu, OVNI fora de moda, nadador em contra-corrente.

Basílio leu num jornal – de que já não reza a memória – que naquelas terras de muitas Palmeiras e excessos, eram bem-vindos portadores de arrojo empresarial. Pouco a perder e algo, certamente, a ganhar, nem que fosse o rasgar dos sentidos. Do olhar para o Mundo.

- Que raio! Porque não? Que faço eu afinal aqui, entre o pisa-calos do «50» de Poço do Bispo a Algés e as massagens colectivas do Metro, invariavalmente decorados de caras-fechadas. Olhos baços. Onde ninguém se «bom-dia»! – pensou o alfacinha.

Basílio fez as malas! Três delas e zarpou. Ou melhor, aviou. Pelos ares, aterrando sob aplausos dos passageiros, aliviados pela ausência de desastre, na pista de seu novo sonho.

Para trás ficavam os agouros dos amigos e outros igos. Os avisos de que África é todo aquele desastre sem-fim. Terra de muitos demónios e raros valores. De vida e dos couros. E onde pele branca é um overdraft bancário, continuamente descoberto.

Basílio tudo escutou. Multiplicando preocupações. Indecisões. Passos atrás e outros tantos à frente. Até que a última mala se fechou. Em definitivo.

África e pronto!

África com todos. Tipo bacalhau. Onde o que se não gosta é sempre arrumável na borda do prato.

Alfacinha esticou os sentidos, quais folhas da dita cuja, ao sorver os perfumes tropicais, do bafo húmido que invadiu o avião, mal se escancarou a porta.

E, sem dar por isso, descobriu-se menino de excitação. Ser mortal de alma recauchutada, pelo desafio telúrico de recomeçar do zero sem rede. Onde o limite é a capacidade individual de saltar e não o peso das albardas.

Basílio tropeçou em todas as armadilhas e escorregou em todas as cascas de banana, largadas a eito, como quem percorre campo de Guerra, assim lotado.

Mas de cada vez que caiu se ergueu sempre, com reforçado alento e engenho, porque ali, o Estado-pai é figura ausente, há décadas falecida.

E os filhos crescem assim, ladinos e ágeis, na transposição dos desequilíbrios, dos vãos da vida, dos desafios das apostas.

Há umas décadas, o rectângulo surpreendeu-se nos juros de agilidade empresarial que lhe injectaram milhares de ditos retornados.

Gente habituada a malhar, por si. A esmurrar o nariz, a arregaçar as mangas e, se necessário fosse, como foi em muitos casos, a recomeçar do zero.

Agora, há quem se incube do mesmo vírus em sentido contrário. Com mil e uma razões para duvidar e recuar. Mas outras tantas para acreditar na capacidade própria de cair de pé.

Após o salto mortal.

Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias