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Isabel Meirelles 08 de Setembro de 2005 às 13:59

O silêncio dos inocentes

os consumidores recorrem inevitavelmente a produtos baratos, no caso, aos têxteis chineses. E como o cliente tem sempre razão, e nem considerações nacionalistas, europeístas, ou outras tão pertinentes, neste caso, as importações têm sido massivas.

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Comprar uma camisola ou umas calças de uma qualquer reputada marca europeia, ou mesmo americana custa hoje, pelo menos, um ordenado mínimo nacional.

Ora, com as perspectivas pessimistas de crescimento a nível europeu, com o valor do barril do petróleo a subir vertiginosamente, com consequências de furacão «Katrina», os consumidores recorrem inevitavelmente a produtos baratos, no caso, aos têxteis chineses. E como o cliente tem sempre razão, e nem considerações nacionalistas, europeístas, ou outras tão pertinentes, neste caso, as importações têm sido massivas.

Esta é a primeira explicação para que toneladas de carregamentos, encomendados e pagos, de T-shirts, de camisas, de calças e até «soutiens» estejam bloqueados em inúmeros portos europeus, incluindo os portugueses. Só em camisolas, feitas nas fábricas chinesas e destinadas a serem vendidas no velho continente, estima-se que o bloqueio atinja 50 milhões de unidades.

Mas esta análise do desejo do consumidor que o lucro quer saciar é apenas a parte acessória.
A explicação principal reside na entrada da China na OMC - Organização Mundial do Comércio, em 2001.

Foi um passo de grande risco, como se está a começar a perceber, porque este país para além de ser o mais populoso do mundo, com um crescimento anual próximo dos dois dígitos, é hoje o segundo maior consumidor de petróleo mundial a seguir aos Estados Unidos.

Mas a concorrência dentro do liberalismo é saudável, mas não no âmbito de um capitalismo selvagem onde não existem regras.

No caso chinês as regras são as de uma ditadura que envergonha a Europa e as democracias ocidentais, mas que estas, perante o colosso económico em que se tornou, nem se atrevem a questionar.

E todas as declarações de princípio de respeito pelos direitos humanos proferidas até à náusea pelos principais dirigentes europeus e americanos de repente ficaram silenciadas.

Portanto o caso não é novo, porque já em 2004 os valores das importações de têxteis chineses acordados e efectivamente realizadas, representaram um desvio que, conforme os produtos, foi na ordem dos 49% a 318%!

E não é um qualquer comissário europeu do comércio ou outro, que depois de ter amnistiado a violação do ano transacto, vai ter força para reverter este ano a situação. Nem agora nem nunca, porque não é possível competir com um regime que continua a silenciar todas as vozes contrárias internas e agora, ao que parece também externas, que mantém a sua moeda desvalorizada artificialmente, não respeita as regras ambientais e pratica descaradamente «dumping social» com o uso de mão de obra infantil e escrava, sem horários, sem férias, em suma, sem o respeito dos mais elementares direitos sociais. Ou seja, a Europa está a ir pelo mau caminho e a dar sinais de fraqueza porque põe o acento tónico apenas no económico, esquecendo o seu «ex- libris» que é o respeito pelos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais.

Pensar que deixar entrar a China na OMC levaria a implodir o regime por dentro, foi um erro de cálculo grosseiro.

Provavelmente o que vai acontecer é o inverso. É a Europa que vai implodir, a começar por Portugal. Para já, no sector do têxtil e do vestuário, que representa 200 mil postos de trabalho. É que os chineses podem comprar as nossas máquinas, mas isto significa que para além de irem os anéis, também levarão os dedos. E sem dores de consciência.

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