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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 03 de Janeiro de 2012 às 23:30

O valor e os valores

Há dias o antigo CEO do Deutsche Bank, Hilmar Kopper, deu uma entrevista à "Der Spiegel" onde atirava um balde de gelo para cima de muitas convicções escaldantes que circulam por aí.

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Há dias o antigo CEO do Deutsche Bank, Hilmar Kopper, deu uma entrevista à "Der Spiegel" onde atirava um balde de gelo para cima de muitas convicções escaldantes que circulam por aí. Dizia ele: "Eu pensava que o mundo era moldado pelo amor. Tenho pena, mas isso é uma tolice. É moldado pelo dinheiro. Dinheiro, avareza e ganância – essas são as três constantes principais". Kopper deve saber do que fala. Mas o que diz dinamita o que restava da fé na humanidade. Faz ruir o castelo de cartas sobre o qual assenta a democracia de consumo ocidental.

O dinheiro não tem pátria. Mas a sensatez deveria ter. É por isso que a decisão da Jerónimo Martins de emigrar algumas posições para a Holanda é um borrão no trabalho, em sentido contrário, que tem feito Alexandre Soares dos Santos. É uma rendição às evidências. A Jerónimo Martins tem a sua estratégia empresarial e financeira.

É defensável. Mas deixa um travo amargo na boca dos portugueses que trabalham por conta de outrem e não podem transferir o rendimento para paraísos fiscais. Pior: o sinal da Jerónimo Martins é que não se pode acreditar em Portugal. Emigremos, disse o primeiro-ministro. Emigremos, diz a Jerónimo Martins. Para um são os cidadãos que devem emigrar. Para outro deve emigrar o dinheiro.

É assim que se promove a desertificação de um país. É uma deserção do valor e dos valores. Não está em causa a opção. É o sinal que soa como uma sirene estridente. Em finais dos anos de 1970 uma banda punk, os Sex Pistols, gritavam em Londres: "No Future!". Sem alarido a Jerónimo Martins vem dizer a mesma coisa sobre Portugal.
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