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O Financeiro VI 22 de Abril de 2005 às 13:59

O velho morreu de seguro

Do alto dos seus 77 anos, Miguel já só olhava a vida pelo prisma humanitário. Dedicava os seus dias aos mais necessitados, tendo transformado uma mansão do século XIX num centro de acolhimento para alcoólicos, toxicodependentes, doentes terminais e velhos

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A fachada...

Do alto dos seus 77 anos, Miguel já só olhava a vida pelo prisma humanitário. Dedicava os seus dias aos mais necessitados, tendo transformado uma mansão do século XIX num centro de acolhimento para alcoólicos, toxicodependentes, doentes terminais e velhos sem abrigo. Esses pobres desgraçados conheciam aí uma renovada alegria de viver, usufruindo de todo o tipo de mordomias que lhes minimizava o sofrimento.

Miguel cuidava ainda diariamente da sua mulher, a quem administrava pessoalmente os medicamentos de que a pobre dependia.

Miguel era, de facto, um homem exemplar. Desses que já não se fabricam. Contudo, como acontece a todos os homens bons, o destino tornou a humanidade mais pobre ao levá-lo num dia fatídico de Fevereiro - num desses dias em que parece que os astros se conjugam para nos tramar.

Tudo começara às 15h, confirmadas cuidadosamente no Breguet Héritage Chronograph. Acompanhado do seu filho e do melhor amigo deste, Miguel dirigiu-se a um hipermercado com intenção de comprar os ingredientes para o magnífico jantar que haveriam de dar nessa noite. Já dentro do estabelecimento, o carrinho de compras foi-se enchendo de produtos de altíssima qualidade, transformando-o numa montra rolante de fazer inveja a qualquer Chez Fauchon de Paris. Parecia mais um dia normal, em que tudo terminaria num serão requintado, onde uma dezena de convidados teria acesso, restrito, a esse magnífico mundo do charmoso filantropo. Mas não...

Empurrado por um grupo de jovens vadios que corriam corredores fora, o filho de Miguel embate violentamente numa pirâmide de latas de pêssego de compota, derramando-as sobre si e caindo inanimado. É então que Miguel se debruça sobre a cabeça do filho e, com um ar aterrorizado, diz ao seu amigo para ir buscar socorro. O amigo sai precipitadamente do hipermercado, em direcção ao carro de Miguel, um magnífico Rolls-Royce Silver Shadow prateado, acabando por ser atropelado por um carro que surgira subitamente na rua de acesso ao estacionamento.

Saindo com o filho nos braços, furando pelo meio da multidão que se agigantava, Miguel não queria acreditar no que via - acabando por concluir estar a ser vítima de uma gigantesca cabala do destino -, quando se apercebeu que o Rolls fora roubado.

Já dentro do taxi, a caminho do hospital, os pensamentos do septuagenário voltaram-se então para a frágil esposa, temendo igualmente pela sua vida.

Com o filho e o amigo entregues aos cuidados de um médico da sua confiança, Miguel dirigiu-se de seguida para casa, onde à chegada concluiu que os seus piores pressentimentos se vieram a concretizar – a mulher jazia morta num dos sofás da sala.

Enlouquecido por aquela visão, Miguel dirigiu-se com andar autómato para o seu gabinete, onde mais tarde viria a ser encontrado, já sem vida, junto a uma folha manuscrita e à sua inseparável Rotring Artpen.

A realidade...

Apesar dos seus 77 anos, Miguel continuava a olhar a vida como um palco gigantesco onde desfilavam bandos de patos prontos a depenar. Depois de ter desferido fantásticos golpes na Bolsa, a velha raposa dedicava-se agora à actividade, não menos calma, de burlar seguradoras.

Havia-se especializado no ramo vida. Assim, começou por convencer alcoólicos, toxicodependentes, doentes terminais e velhos sem abrigo a fazerem seguros de vida (sobretudo nessas seguradoras que dispensam os exames médicos), exigindo a sua indicação como beneficiário a troco de acolhimento numa propriedade de luxo. Aí, ia-lhes dando toda a espécie de bebidas alcoólicas, drogas e até mesmo pequenas doses de veneno misturado na comida, por forma a acelerar os processos de destruição. Ao mesmo tempo, pagava-lhes um terço do valor das suas apólices sempre que estes resolviam abandonar os seus cuidados, adquirindo, definitivamente, os direitos de disposição subjacentes – naturalmente, depois vendia-as a patos que as compravam por dois terços do seu valor, com a perspectiva de que a morte do segurado se viesse a consumar depressa.

Em casa, Miguel utilizava os mesmos métodos, tendo feito primeiro um chorudo seguro de vida à sua mulher, para depois ir aumentando as doses de insulina de que a mesma necessitava para viver, até lhe administrar a dose fatal.

Já no âmbito dos seguros não vida, Miguel havia estabelecido uma sociedade com um pequeno grupo de advogados e médicos amigos, dedicando-se a simular acidentes pessoais e materiais. Assim, angariava miúdos vadios na rua, preferindo os que tivessem tido fracturas no passado (as mesmas que apareceriam nas radiografias futuras), treinando-os, de seguida, a simular acidentes – nada mais fácil do que aparecer a correr junto a um carro dando-lhe uma joelhada na porta lateral, jazendo e gritando, depois, no chão, à espera que a multidão se agigantasse e condenasse, logo ali, o desgraçado do condutor.

Também neste ramo Miguel recorria à própria família, utilizando os seus filhos gémeos (um saudável e um deficiente mental) para sorver chorudas indemnizações: com o gémeo saudável simulava um acidente, trocando-o, mais tarde, pelo deficiente, com quem provava os danos cerebrais irreversíveis e obrigava as seguradoras a suportar a indemnização devida.

Quanto aos danos materiais, as práticas eram mais fáceis, bastando entregar as chaves do carro a um amigo, que se encarregaria de o deixar incendiado, afundado, ou simplesmente abandonado, colhendo, mais tarde, os frutos do roubo ilusório.

Só que um dia Miguel teve azar: jogando a parada mais alta e mais imbecil da sua vida, combinara com um «gangster» simular a sua própria morte, recuperando, de seguida, a indemnização correspondente, que dividiriam, recebendo o seu quinhão, através da nomeação como beneficiário de amigo em quem depositava total confiança. O «gangster», que havia garantido a sua quota parte ao convencer o velho a nomeá-lo directamente beneficiário (a par com o tal outro conspirador da confiança de Miguel), ficou de arranjar um corpo que se assemelhasse o mais possível ao do futuro «falecido» (naquilo que restasse de um incêndio, poucos iriam notar as pequenas diferenças). Só que, não estando a conseguir arranjar o sósia, o «gangster» optou por matar o próprio velho, que, assim, acabou por ser vítima da sua tramóia. Ironicamente, acabava por ser uma espécie de suicídio.

Depois de o matar, deixou-o debruçado sobre a sua secretária, ao lado dos objectos do crime, de uma carta e de uma caneta de estimação, aproveitando a sorte de, ao chegar a casa do dito, se ter deparado com a sua mulher já hirta sobre o sofá, depois de sucumbir ao efeito da dose fatal de insulina.

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