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João Cândido da Silva joaosilva@negocios.pt 30 de Abril de 2007 às 13:11

O vento que sopra de Espanha

No início dos anos 90, Espanha passou de um estado de euforia para a depressão. A organização da Exposição de Sevilha e dos Jogos Olímpicos de Barcelona criaram um ambiente de "fiesta" que contaminou o crescimento económico, com base no investimento em in

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No início dos anos 90, Espanha passou de um estado de euforia para a depressão. A organização da Exposição de Sevilha e dos Jogos Olímpicos de Barcelona criaram um ambiente de "fiesta" que contaminou o crescimento económico, com base no investimento em infra-estruturas e no consumo.

Depois de encerrados os dois eventos, chegou a ressaca. E a enxaqueca só terminou quando, depois de um ajustamento doloroso, o país começou a endireitar a economia e as contas públicas, preparando-se devidamente para a entrada no euro.

Enquanto Espanha sofria com o abrandamento do dia seguinte, Portugal era objecto de alguma inveja. Do lado de lá da fronteira, acreditava-se que em terras lusitanas estava a germinar um caso de sucesso semelhante ao irlandês. Pura ilusão.

Não demorou para que Portugal, em 1993, sofresse um choque violento, em parte provocado pelo arrefecimento de Espanha, mercado que, desde a adesão das duas nações à União Europeia tinha conquistado uma importância crescente nas relações das empresas portuguesas com o exterior.

A integração entre as duas economias é, actualmente, ainda mais forte e extensa do que nesses tempos. E os riscos de uma constipação em Espanha vir a provocar uma nova gripe em Portugal, comprometendo a lenta aceleração que está a ser experimentada pela economia nacional, são ainda mais elevados.

É curioso verificar que as nuvens negras que se desenham no horizonte da economia espanhola anunciam um temporal semelhante ao que se abateu sobre Portugal, praticamente desde o início da actual década.

O crescimento espanhol tem sido alcançado muito por via do aumento do consumo. E este tem sido potenciado pelas baixas taxas de juro da Zona Euro. A construção e o imobiliário levantaram voo, tal como sucedeu em Portugal antes da presente crise, e o crédito barato pressionou os preços, sobretudo nos centros urbanos de maior dimensão.

Como diversos economistas atentos ao comportamento da economia de Espanha não se têm cansado de avisar, os desequilíbrios acumularam-se e um dos sinais mais expressivos de sobreaquecimento é transmitido pelo elevado défice externo.

É evidente que, tal como em Portugal, um saldo negativo elevado nas balanças corrente e de capital não cria especiais problemas, pelo simples facto de Espanha estar no euro. Noutra época, quando o escudo e a peseta estavam em circulação, Espanha, assim como Portugal, teria de passar pela via sacra da desvalorização da moeda, importando inflação, e por apertos violentos na política monetária.

Com uma moeda forte e credível, capaz de, para o bem e para o mal, assegurar a estabilidade nesta frente, os perigos parecem menores. Parecem, porque, na realidade, se há aspecto da convivência com a moeda única europeia que qualquer português poderá testemunhar, é o de que a presença no euro não significa que o endividamento excessivo não tenha, um dia, de ser pago.

As semelhanças entre as tensões que ditaram o fim das ilusões em Portugal e as que ameaçam Espanha são nítidas. Mas também há diferenças. A mais relevante está no facto de as contas públicas espanholas evidenciarem um superávite, no que é a grande herança deixada pelo Governo de José Maria Aznar. Se não desprezar as lições do mau exemplo português, talvez o Governo espanhol consiga poupar as economias ibéricas a uma tempestade rigorosa.

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