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Negócios negocios@negocios.pt 07 de Setembro de 2001 às 12:04

«O Verão do nosso descontentamento»

Curiosamente, parece que é mesmo de uma tempestade verdadeiramente invernal que os mercados estão a precisar, uma espécie de Terramoto de 1755, uma correcção suficientemente forte, que nivele valorizações, múltiplos, estimativas, de uma vez por todas.

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Depois do pior inverno de que houve memória no último século, este verão pouco fica a dever à fama tradicional da estação. Um Julho com dias de chuva outonais e um Agosto opressivamente cinzento a lembrar tempestades invernais...Curiosamente, parece que é mesmo de uma tempestade verdadeiramente invernal que os mercados estão a precisar, uma espécie de Terramoto de 1755, uma correcção suficientemente forte, que nivele valorizações, múltiplos, estimativas, de uma vez por todas, e nos poupe a esta agonia, a este processo lento e moroso de constantes profit-warnings, revisões de lucros em baixa, nova correcção de preços a re-ajustar múltiplos, etc etc etc, blá blá blá...

Olhando à volta, a verdade é que a esperança não é muita. O FED está no limite das suas forças, depois do mais rápido estímulo monetário da sua história, embora a economia americana continue apática e sem querer dar sinais de vida. O Banco Central Europeu continua apostado em ganhar credibilidade com uma estratégia da qual ainda ninguém percebeu muito bem as regras (alguém dirá, portanto, da maneira errada) e vai dando passos receosos, apesar dos sinais crescentes de abrandamento económico. É que, se quando os Estados Unidos espirram, o mundo se constipa, quando a poderosa economia germânica dá sinais de fraqueza, o resto da Europa fica à beira de uma tuberculose pulmonar...

Os Cavalos Também se Abatem

Para já, há que reconhecê-lo com frontalidade: este é um dos piores Bear Market de que há memória, que é uma forma eufemística de dizer que é quase tão mau como o da Grande Depressão de 1929. Esperemos que não seja tão longo mas é certamente o mais parecido: um choque (fortíssimo) do lado da oferta, cujos contornos apenas agora se começam a tornar nítidos e que apenas medidas alargadas de estímulo à procura podem amenizar. Por outras palavras, a economia americana vai mal mas estaria infinitamente pior não fosse a descida acumulada de 3% das taxas desde Janeiro deste ano. Depois, há ainda o pacote fiscal do Presidente Bush, eleitoralista no início mas para o qual se olha agora com um secreto esgar de esperança. Só que, para além de tudo isso, está a já notória desaceleração da economia global nas suas várias nuances regionais: a Europa já está a abrandar, a América Latina permanece subjugada aos avanços e recuos da economia argentina, o Japão continua soterrado por maus indicadores económicos…

A verdade é que os excessos se pagam sempre, baratos ou caros, e este longuíssimo Bear Market só vem provar isso. Excesso de confiança, excesso de investimento, excesso de capacidade, excesso de endividamento, excesso de confiança. Excesso. E talvez por isso nem o “excesso” monetário do FED parece capaz de pôr ordem na casa. Pelo menos, enquanto os agentes económicos não puserem, eles próprios, ordem nas suas. Limitar investimentos, conter custos, baixar endividamento, tudo passos de um processo para o qual pouca diferença faz se as taxas de juro estão muito altas ou muito baixas. E é exactamente a morosidade desse processo que nos deixa nesta agonia lenta...Talvez nos valha esta economia globalizada: se os efeitos se propagam rapidamente, também os ajustamentos tendem a ser mais rápidos...

À espera de Godot

Os sinais de retoma anseiam-se mas quais? Claramente o enfoque terá de estar na frente económica, nos indicadores de confiança dos agentes, quer dos consumidores – que continuam a ressentir-se dos despedimentos maciços -, quer dos empresários – e o NAPM* tem sido muitas vezes a luz ao fundo do túnel, esperemos que os números de Agosto sejam exactamente isso…Só depois disso se poderão ver sinais de recuperação de lucros. E, provavelmente, não na área tecnológica, pois essa continua de ressaca depois dos excessos das dot.com´s; é que os upgrades das redes e softwares para a passagem do ano 2000 (o famoso bug, lembram-se?), no fundo, acabaram simplesmente por gerar um empolamento conjuntural dos níveis de procura que muitos terão julgado sustentado. É claro que a Internet veio para ficar e, com ela, novas formas de fazer negócio.

A questão, vê-se agora, é se a Internet criou realmente novos negócios ou simplesmente alargou os canais de distribuição dos negócios já existentes. Porque, para já, os vencedores são os jogadores do costume (vejam-se, por exemplo, os sectores de banca e de retalho) e até os dot.com´s mais empedernidos (os poucos que sobreviveram) começam a falar na necessidade de gerar cash-flow

* NAPM: National Association Purchasing Managers Index.

Carla Rebelo

Analista do Banco Finantia

carla.rebelo@finantia.com

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