Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 15 de abril de 2013 às 00:01

Onde está a esperança

Apesar dos investimentos vultuosos realizados nas últimas décadas, uma parte muito importante das aplicações são de natureza improdutiva e pouco contribuíram para a melhoria da produtividade. Esta permaneceu estagnada face ao registado nos nossos parceiros

A recuperação económica requer tempo, austeridade e uma política económica que facilite a aceleração da afectação virtuosa dos recursos de que a nação efectivamente dispõe. Pelo contrário, aquela será prejudicada com a pedinchice – mascarada de apelos à solidariedade - junto dos credores e dos parceiros da União Europeia.


A observação do comportamento do investimento nos últimos 5 anos (pós-crise) mostra que - apesar das políticas erradas e da resistência do Estado em libertar as forças produtivas da sociedade - se desencadearam forças que permitem alimentar a esperança de uma melhoria significativa num horizonte de médio prazo. A evolução das exportações é já um dos indicadores mais visíveis1.

O nosso principal problema é a baixa produtividade que não deixa margem física para melhoria dos salários e do consumo e impõe grande rigor na escolha dos investimentos.

A qualidade do investimento é um dos principais factores da produtividade. Abordá-lo-ei hoje brevemente.

A crise reduziu significativamente a acumulação do capital para níveis perigosamente baixos quase no limiar da insuficiência para repor as amortizações. No entanto, a redução do investimento e a austeridade pública e privada aceleraram um processo virtuoso de reafectação do capital de sectores improdutivos para sectores produtivos. Este facto alimenta a esperança de que está em marcha um franco movimento de alteração estrutural do capital e do investimento capaz de melhorar significativamente a produtividade.

A tabela anexa mostra, ainda que de forma muito rudimentar, a alteração em marcha que outros indicadores confirmarão.

Apesar dos investimentos vultuosos realizados nas últimas décadas uma parte muito importante das aplicações são de natureza improdutiva e pouco contribuíram para a melhoria da produtividade. Esta permaneceu estagnada face ao registado nos nossos parceiros. Numa primeira aproximação podemos tomar a proporção do investimento em máquinas, excepto as destinadas a transporte, como indicador da qualidade do investimento. Por volta de 1995 esta proporção era de cerca de 17% em Portugal contra 25% na média da União Europeia. O período de crise viu inverter-se a situação. A proporção passou a ser superior em Portugal. A partir de 2008 esta relação começou a melhorar significativamente. Em 2011, já era 28,9% e em 2012 subiu para 31,5%. A partir de 2008 e em todos os anos foi superior em Portugal com diferenças crescentes que atingiram cerca de 4% em 2012; nos anos 1995 a diferença era de sinal inverso com valores absolutos da ordem dos 6% a 7%

Desde 2008, o investimento total caiu muito em Portugal. É o único caso da União Europeia a 15 cujo investimento total está abaixo do nível registado em 1995 (24,2 biliões de euros em 2012 contra 26,5 biliões em 1995)2. Pelo contrário, o investimento em máquinas, embora com quebras, tem resistido bem. Atingiu 7,6 biliões de euros em 2012, contra 4,4 biliões em 1995. Por outro lado, a média do investimento em máquinas passou de 6,9 biliões de euros no período 1995-2007 para 8,7 biliões em 2008-2012, representando um crescimento de 25,6%.

Como se referiu, em 2012 o valor do investimento em máquinas no total do investimento atingiu 31,5%, valor nunca atingido no país. Este valor não é exagerado e é desejável que se mantenha ou suba. (A Suécia, por exemplo, teve uma média de 32,9% nos últimos 17 anos). Um breve exercício pode sugerir o que teria ocorrido, em termos de empregos criados, se o valor registado em 2012 tivesse sido uma constante nos últimos 17 anos. Só por simples reafectação de recursos, portanto sem volume adicional de investimento, poderiam ter sido criados centenas de milhar de postos de trabalho.

Tomando a referida hipótese, teríamos acumulado, em 17 anos, 54.618 milhões de euros adicionais de capital produtivo. Considerando a relação capital/trabalho média actual, isso representaria quase 600.000 empregos produtivos adicionais. Este exercício não considera efeitos multiplicadores nem outro tipo de dinâmicas, mas também elimina os empregos criados nos sectores não produtivos; imaginando que, pelo menos, os dois efeitos se anulariam os números apresentados podem ser tomados como criação líquida de emprego.

Estes 600.000 postos de trabalho aparentam corresponder ao excesso de desemprego que a economia portuguesa tem vindo a criar nos últimos anos, fruto da destruição de empregos criados artificialmente sob a égide de enormes volumes de investimento improdutivo.

A austeridade que atingiu a economia portuguesa tem duas componentes. A imposta pelos decisores políticos e a decidida pelos agentes privados. A austeridade de iniciativa privada resulta não apenas dos reflexos da austeridade imposta pelo Estado mas, principalmente, da resposta às novas condições dos mercados, externo e interno. As duas austeridades puseram em movimento um conjunto de alterações estruturais muito significativas. Estas alterações provam, apesar da morosidade e da resistência dos agentes públicos, a capacidade e flexibilidade dos agentes privados para levar a cabo uma recuperação económica saudável.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 A melhoria da qualidade dos investimentos, que realço nesta crónica, começa a ter reflexos na qualidade do comércio externo. A exportação de produtos primários está em queda e a de produtos transformados a aumentar. Isto também se verifica no caso das importações. A importação de produtos primários (inputs da nossa indústria está a aumentar) contrariando a tendência geral de quebra das importações. Por outro lado, a importação de produtos transformados está em queda não apenas em resultado da quebra do consumo.

2 Os valores são para relevância das comparações, fixados em euros de 2005.

 

Economista e professor do ISEG
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