Baptista Bastos
Baptista Bastos 04 de abril de 2014 às 10:02

Onde se fala, sobretudo, de medíocres e galarós

Estamos, de novo, "à espera de grandes acontecimentos", embora o suserano, como todos os suseranos, presuma que vai durar eternamente.

 

Nada é eterno e o processo histórico não consente paragens. Os hiatos que parecem constituir imobilizações, na realidade não o são: são interregnos, muito curtos em relação à natureza da História. E às decisões esdrúxulas tomadas por governos desasados tudo se recompõe, sempre num avanço que parecia impossível. Em 1962, escrevi um pequeno romance, "O Secreto Adeus", hoje com mais de dez edições, que pretendia, através das movimentações da Redacção de um jornal, reflectir o próprio País na sua amarga e contraditória existência. A certa altura, escrevia: "Estamos à espera de grandes acontecimentos que nos modifiquem a vida." O livro foi mal recebido pela classe jornalística, e aplaudido por João Gaspar Simões ou por José Gomes Ferreira, o poeta, que nele viram a angústia e o desespero de um tempo só aparentemente sem esperança. Estamos, de novo, "à espera de grandes acontecimentos", embora o suserano, como todos os suseranos, presuma que vai durar eternamente.


As diferenças, no entanto, são enormes. A época suscitava grandes debates, a Itália e a França dispunham de escritores de alto gabarito, que pensavam o mundo e as coisas com a profundidade exigida. Em Itália, Vittorini, Pavese, Togliatti, Carlo Salieri, mais, outros mais; e em França, Sartre, Camus, Beauvoir, Merleau-Ponty. Exigiam a polémica sobre os destinos do homem. E o que eles pensavam e diziam obtinha amplas repercussões em todo o mundo. Uma revista italiana, "Il Politecnico", publicou uma discussão entre Togliatti e Vittorini sobre "automação", afinal pretexto para se dilucidar a grande questão da liberdade. Em França, "Les Temps Modernes" alargava o debate sobre tudo o que ao homem dizia respeito. Não há a mínima comparação entre o pensamento consistente desse tempo e a leitura do "Financial Times", que parece ser o regalo ideológico de uma geração a que Castoriadis, chamou de "insignificante." Ainda há dias assisti, um pouco estupefacto, à imagem publicitária de um jornalista, filmado num comboio, muito lampeiro a ler, ou a fingir que lia, o tal jornal; nem um livrito, nem um texto um pouco mais volumoso, mas sim a curiosidade fixada, ou a fingir, na página do "Financial." É lá com ele, e com eles, mas a verdade é que a tineta se reflecte, depois, em todos nós.


Também há dias tive a pouca sorte de ver, na SIC, uma penosa entrevista a Durão Barroso, feita por um galaró (é assim que chamam ao sujeito, na Redacção onde trabalha), que já teve graça e coragem, atributos que parece ter perdido. Um paleio desordenado, apenas com uma direcção e um sentido: o de ser panegírico do Barroso. O estranho documento não serviu a ninguém e, como reflexo involuntário, deu uma imagem turva do jornalista e uma ideia desgraçada do entrevistado. Sabe-se que o homem não é muito consentâneo com a inteligência (apesar dos elogios frenéticos do Marcelo), nem está hipotecado a uma competência fértil. É um medíocre afectado e servidor obsequioso dos poderosos. Como, aliás, entre outros exemplos, se registou na Cimeira dos Açores, com Aznar, W. Bush e Tony Blair, na qual estes combinaram a criminosa invasão do Iraque, enquanto o mordomo Barroso ia tomar um café numa pastelaria ali próxima.


Estas peripécias, embora tristes e funestas, são sempre passageiras. Deixam atrás de si um rasto de morte e de assombro, como no caso do Iraque, mas outros tempos virão atrás dos tempos. Não podemos é abandonar a exigência crítica, nem a razão da consciência histórica. Coragem, companheiros!

 

 

b.bastos@netcabo.pt

pub

Marketing Automation certified by E-GOI