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José Diogo Madeira jdmadeira@netcabo.pt 20 de Abril de 2005 às 13:59

Onde está a direita?

Sem ideias e sem poder político real, à direita resta agora pouca coisa. Mas, em contrapartida, sobra-lhe tempo para, beneficiando do exemplo de Luís Nobre Guedes, partir à descoberta do País onde vive.

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Numa desassombrada entrevista ao «Público» / RR, publicada na última segunda-feira por aquele jornal, Luís Nobre Guedes tentou uma explicação para o desaire da direita nas últimas legislativas. «Portugal não é o País que os consultores fazem ou imaginam. Portugal é uma realidade completamente diferente e onde existem problemas sociais que são incontornáveis. Há uma pobreza muito acentuada, uma desertificação arrepiante, com grandes focos de marginalidade social e exclusão». O diagnóstico é do anterior ministro do Ambiente. Que, sobre o rendimento mínimo garantido, reconhece que «esse aspecto é um daqueles em que a maioria não teve a sensibilidade necessária e é uma faixa do eleitorado enorme. É uma questão de um mínimo de justiça social e de decência na forma como se encara a política. Em Coimbra, durante a campanha, encontrei, de facto, uma realidade que não conhecia a este nível de exclusão». Mais vale tarde do que nunca.

A direita portuguesa está hoje esfrangalhada entre um PSD remetido para uma quase marginalidade política - pelo menos em teoria, com menos de um terço dos deputados na Assembleia da República, é possível uma revisão constitucional sem o partido laranja - e um CDS que ninguém quer liderar. E, mais forte do que a lógica das percentagens eleitorais, é a questão ideológica. Os partidos que representam o eleitorado da direita estão perdidos entre as teses da economia liberal, agora protagonizadas por António Borges, o humanismo social-cristão redescoberto por Nobre Guedes e uma vaga aproximação à social-democracia, por natureza paradoxal. Social-democracia é a única manifestação moderna da esquerda - o comunismo, lembrem-se, já morreu - e não uma forma «fashion» de ser de direita. Eliminado este equívoco, que também é alimentado pelo nome travestido do PSD, que em boa verdade se devia ter ficado apenas por PPD, só há direita no liberalismo económico e na democracia-cristã. Tudo o resto é apropriação indevida.

Mas, e aqui é que está o rasgo visionário de Nobre Guedes, o País é pobre e incapaz de aguentar as apregoadas reformas estruturais, sem um colchão que amorteça os excluídos. Porque essas reformas são necessárias, urgentes e inevitáveis. Mas traduzem-se em mais desemprego, mais famílias sem rendimentos estáveis e maiormarginalização dos pobres.Nemé preciso ir a Coimbra para perceber isso: basta abrir mão do elitismo social que caracteriza a burguesia das grandes cidades - nós, os que escrevemos e lemos estas colunas de opinião nos jornais ditos de influência - e conhecer a vida de quem mora em na cintura suburbana de Lisboa. É gente que (sobre)vive com rendimentos familiares abaixo dos mil euros mensais e que se esfalfa para comprar casa e, quando pode, carro próprio. São estes os primeiros a sentir, na pele, as reformas e a modernização da economia - as reestruturações empresariais que despedem e a reforma da administração pública que mandará para casa dezenas de milhares de funcionários públicos. Visto isto, não há reformas sem suporte aos menos favorecidos. Não há modernização sem coesão social. Não há desenvolvimento económico sem empenho político pelos excluídos.

Ora isto é o terreno da esquerda. É por aqui que se pode mover o governo de Sócrates. Reformar devagarinho o aparelho do Estado e ir abrindo a economia ao mercado. Face a isto, a direita fica sem espaço próprio. Se promete mais velocidade e eficácia, na sua própria terminologia tecnocrática, nestas reformas, perde os votos do seu próprio povo. Se promete uma via social-cristã, torna-se demasiado semelhante à esquerda preocupada socialmente. E, entre estas contradições, os líderes do PSD e do CDS vêm sem posicionamento ideológico claro. A direita política estará, nos próximos anos, condenada a dividir-se entre três eixos distintos. Por um lado, um CDS que tenderá a afirmar-se como clube político, mas sem qualquer influência real sobre o País ou os seus municípios. Por outro, um PSD que congrega basicamente uma teia de interesses autárquicos. E, «last but not the least», o Professor Cavaco. Percebendo que está arredada de toda a forma de poder real, as gentes da direita acolherão a candidatura presidencial do Professor como se de uma segunda vinda do Messias à terra se tratasse. Mas com uma maioria legislativa sólida, este poder presidencial servirá de pouco. Sem ideias e sem poder real, à direita resta pouca coisa. Mas, em contrapartida, sobra-lhe tempo para, beneficiando do exemplo de Nobre Guedes, partir à descoberta do País onde vive. Já é um começo.

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