Fernando  Sobral
Fernando Sobral 30 de outubro de 2014 às 20:12

Os dias dos donos da dívida

Não é um conto de fadas. É simplesmente o nosso fado. Três anos de austeridade que passou por Portugal com a inclemência de uma ceifeira debulhadora e o défice estrutural lá continua.

O serviço da dívida público (e, já agora, privado) é tão elevado que bastará um espirro dos chamados mercados para que uma gripe se instale entre nós. Três anos depois de alquimias perfeitas (porque sempre iguais quando um país deixou de ter a arma da desvalorização cambial) do FMI, da União Europeia e da OCDE, só há uma convicção: o país está mais pobre. Mas continua de mãos atadas pelo défice e pela dívida. Ou seja, entregue aos humores das grandes potências e interesses estrangeiros. A oligarquia que nos governa mudou algumas faces mas continua a distribuir entre si o que sobra. Ou seja, o sistema está bloqueado. Em 1918, Ezequiel de Campos, na revista "Pela Grei", clarificava friamente a questão: "Não pode haver liberdade política onde há completa sujeição económica". Ou seja, ao contrário do que por aí corre, não nos libertámos da troika, nem desta União Europeia obtusa que, depois da estagnação, caminha para a deflação e que, um dia destes, será apenas um museu de cera do mundo.

 

Três anos depois não se reformou o Estado (corta-se salários ou número de funcionários, ou já agora polícias ou professores como defende a OCDE que também continua a fazer cópias de relatórios mais antigos como se estivesse a transmitir uma nova clarividência ideológica, mas não se cria uma filosofia do seu papel e lugar na sociedade portuguesa), vive-se da capacidade de grandes empresas exportadores e de muitas PME que são exemplos de inovação e racionalidade e da resignação dos cidadãos. Nem aqui surge um populismo, nacionalismo ou radicalismo qualquer que assuste como em França, na Itália, na Grã-Bretanha ou na Espanha. Por isso o sistema sente-se confortável neste faz de conta que é a gestão contabilística da sociedade portuguesa.

 

O grande défice moral é muito superior à dívida. E esse é o centro do problema. A PT eclipsa-se diante dos nossos olhos e ninguém é responsabilizado a sério. O BES desagrega-se e caminharemos para uma comissão de inquérito interminável que nos vencerá pelo cansaço. Olha-se para a justiça ou para a educação e só se vê o caos. As tricas do Governo e da coligação são banalidades. Estruturalmente Portugal continua à espera de se encontrar a si próprio e de criar um modelo sério e sensato. Recuperando Ezequiel de Campos: "Os estrangeiros abasteciam-nos facilmente de tudo o que não sabíamos produzir; o Brasil estrangeiro também, enviava-nos automaticamente o dinheiro que nos faltava para o equilíbrio financeiro: e assim providos de tudo, não dávamos pelos males de não produzirmos muitas coisas de imperiosa necessidade".

 

O défice não é o micróbio moderno da nossa vida financeira mas, pelo contrário, é tão antigo como a nacionalidade. Não parece ir parar por aqui. O que custa é que nunca aprendemos lições com o passado. Mas nisso não estamos sós. A Europa parece hoje uma tertúlia caduca obcecada com as contas de somar e subtrair. O desafio militar de Putin a uma Europa que militarmente não tem voz, e por isso deixou de ser uma voz forte nos conflitos internacionais, mostra que a austeridadezinha como ideologia vai levar à insignificância. E Portugal, bom aluno, segue assim rumo ao abismo. Comandado de Berlim e Bruxelas, os donos da dívida. 

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