Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de agosto de 2018 às 19:30

Os dilemas dos liberais

Por estes dias o liberalismo voltou a ser a palavra da moda em Portugal. Várias facções discutem quem é mais liberal e emergem possíveis partidos liberais como se fossem cogumelos.

Rapidamente irão, como fez a extrema-esquerda nos seus mais brilhantes momentos de loucura, discutir quem é mais liberal. Santana Lopes surge como "liberal" e diz-se inspirado em Macron mas, no fundo, o que está em causa é uma profunda reorganização do centro-direita e da direita em Portugal. O PSD de Rui Rio é hoje um partido em busca de ideias e de uma estratégia clara (excepto transformar agora jornalistas em "inimigos públicos"). Assunção Cristas, apesar dos esforços, não descola. Há assim um espaço órfão que necessita de cuidados políticos. Resta saber se é com discursos "liberais" ou com populismo. Tudo isto nos lembra a carta que António Alçada Baptista escreveu a Marcelo Caetano em 1970. Dizia ele: "Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas". Pouco mudou. Um dos principais problemas é que muitos dos defensores do "liberalismo" em Portugal só olham, quando lhes convém (e não estão à espera da mão aconchegadora do Estado para os seus negócios), para a parte económica do conceito ideológico. Tudo é reconduzido ao mercado. O resto é varrido para debaixo da mesa.

A esquerda conseguiu (quando não se adaptou a ele, como foi o caso da "Terceira Via") transformar o liberalismo numa caricatura do capitalismo explorador. Só que o verdadeiro liberalismo não defende verdades absolutas. Tem um denominador comum (a ideia de liberdade) e de que esta é o valor supremo e indivisível. Não é apenas liberdade política ou económica, mas também cultural ou social. Como se pode ser liberal quando se dinamita a possibilidade de mobilidade social através de políticas de empobrecimento generalizado e de salários baixos como fonte de "competitividade"?

Como se pode ser liberal quando se apela ao nacionalismo?

Karl Popper dizia que o progresso era deixar para trás a tribo. E a tribo de hoje é o regresso do nacionalismo. Como se pode ser liberal quando se crê, de forma semelhante à marxista-leninista relativamente ao estado, que o mercado resolve todos os problemas? Nem Adam Smith, Popper ou Isaiah Berlin disseram alguma vez isto.

O mercado pode resolver problemas económicos. Mas para o progresso é preciso progresso cultural e social. Ao crer-se que o mercado é uma fórmula mágica, os "liberais" tornam-se eles próprios dogmáticos, o contrário da ideia de liberdade que está na essência do verdadeiro liberalismo. A questão é que para ganhar eleições os verdadeiros liberais têm de criar emoções fortes. E aí estão em desvantagem face aos populistas. É este o dilema das diferentes facções "liberais" que, em Portugal, buscam um lugar ao sol no meio do deserto ideológico mais à direita. Resta saber se descobrem a fórmula do poder.

pub

Marketing Automation certified by E-GOI