Fernando  Sobral
Fernando Sobral 01 de março de 2018 às 19:59

Os eternos desafios de Portugal

A história é, muitas vezes, uma fonte de ensinamentos. Por exemplo, quando proclamaram a República em 1910, os vencedores tinham como fito moralizar a vida pública.

Desejavam acabar com o desvario financeiro, que atirara o país muitas vezes para perto da bancarrota e terminar com as despesas obscenas do poder monárquico. A questão central era, no entanto, outra: com défices orçamentais que se sucediam, com despesas sem controlo, com uma dívida externa insuportável, era necessário controlar a utilização dos dinheiros públicos. Assim não era possível fazer uma política pública de investimento na agricultura e na indústria (até porque os grupos económicos privados estavam descapitalizados e sedentos das benesses do Estado). Este atraso económico também não permitia a criação de um sistema financeiro fluido. Nesta batalha de fantasmas venceria a lógica financeira. A I República cairia sem muito estrondo e Oliveira Salazar começaria pela organização financeira para criar um país de contas equilibradas. Que só muito mais tarde se tentaria desenvolver.

 

Fernando Pessoa, que tem vasta escrita sobre questões financeiras, dizia que o comércio seria a locomotiva da prosperidade. Claro que, para isso, é preciso que o dinheiro corra nas veias do país. O Estado é pois, e sempre, o grande buraco negro nacional. Porque ninguém quer mesmo reformar o Estado. Todos o querem colocar ao seu serviço. A crise actual poderia servir para fazer semear um território que está a ficar deserto. Como dizia António Gramsci, um dos grandes pensadores do século XX, "a crise consiste justamente no facto de que o antigo morre e o novo ainda não pode nascer: durante esse interregno observam-se os fenómenos mórbidos mais variados".

 

Tudo isto porque os partidos se tornaram parte do problema. A profissionalização tem sido a sua principal característica. Muitos dos dirigentes são verdadeiros proletários da política: não sabem, de resto, fazer outra coisa. O típico político dos nossos dias vem das organizações juvenis do partido e acaba no círculo entre o Parlamento, o Governo e as múltiplas organizações que orbitam na esfera do Estado. Alguns são designados como "bons na política", o que significa que são bons nos mecanismos da política, coisa diferente de terem ideias políticas. Isto reforça a ideia de que tudo, neste país, é a curto prazo e não a longo prazo. Gere-se o presente, ninguém pensa no futuro. Criámos um país deferente de "Cylons", que na série "Galáctica" se especializavam pelo minimalismo do seu discurso: "By your command"! Ou seja, é quase impossível, neste país pequeno e de interesses muito delimitados pelas famílias, pelos grupos e pelos partidos, fazer as grandes reformas que se impõem. Por isso, ciclicamente, voltamos à questão financeira como central no destino de cada regime. Tudo o resto acaba por ser folclore, que é uma espécie de Festival da Canção político dos cidadãos. Basta ver o que se discute nestes dias chuvosos para se entender melhor porque é que um país que poderia ser um paraíso é sempre um desastre à beira de acontecer.

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