Rui Patrício
Rui Patrício 02 de abril de 2018 às 19:30

Os irmãos Celani

A sua necessidade de imaginação e a sua fome de experiências são de outro mundo, um mundo que ainda existe muito por essa Terra fora, e que às vezes só vemos quando olhamos para lá da bolha de conforto.

No Celani Café & Restaurante, a comida, as bebidas, o ambiente e o serviço são muito bons. Tudo simples, despretensioso, amigável, de qualidade. Não vem (ainda, e que eu saiba) nos roteiros, não foi objeto de crónica em suplemento de "lifestyle", nem sequer fica num dos bairros mais "in" de Lisboa - cidade cujo centro caminha a passos curtos mas firmes para a gentrificação "very typical" e museológica (com as devidas distâncias monumentais), por exemplo, de uma Praga ou de uma Veneza. Em Telheiras e em Carnide, não há disso, e é para esses lados que fica o Celani. Mas não é para crítica gastronómica, e menos ainda para dica de fim de semana que serve este texto, desde logo por falta de vocação e de competência do autor. Serve antes para falar brevemente de três coisas que, por aquelas estranhas associações de ideias que às vezes nos assaltam, se misturaram na minha cabeça a respeito deste café e restaurante (que conheci através de um amigo dos donos, e que recomendo): emigração, empreendedorismo e imaginação.

 

Os Celani são três irmãos que vieram para Portugal, como tantos outros, em busca de uma vida melhor. Como estamos em tempos amigos de provérbios, pode dizer-se que, até chegarem ao dia de hoje e ao seu estabelecimento, terão, de uma forma ou de outra, comido o pão que o diabo amassou e terão, algumas vezes, passado as passas do Algarve. Navegaram pela estranheza de uma terra e de costumes e mentalidade diferentes, pela desconfiança, pela incerteza, pela discriminação, por empregos duros e mal pagos. E tantas outras coisas por que passam - imagino, porque só quem passa pelas coisas sabe verdadeiramente a que sabem e o que dói - as pessoas que vêm para o chamado primeiro mundo em busca de uma vida melhor. Cerca de dez anos depois de o primeiro deles ter chegado, têm o seu café e restaurante, o que louvei no início do texto.

 

Nada tenho contra o glamour das start-ups, nem nada contra o empreendedorismo de quem se aborrece da vida confortável que tem e procura outra menos enfadonha, mais rendível ou mais estimulante. Também nada contra a necessidade que muitas pessoas das novas gerações ("millennials" e etc., já me perdi nos conceitos e nas definições) têm de mudar de vida, de viver experiências, de saltitar de projeto em projeto. Tudo tem lugar nesta vida e cada um deve fazer o que quer e o que pode. Mas, na verdade, hoje deu-me para sublinhar uma outra forma de começo, um outro mundo de experiências, um outro modo de empreender: o dos que mudam porque buscam, por necessidade material, não por desejo existencial ou emocional, uma vida melhor, os que precisam de fugir ou de emigrar, aqueles que dão cor e forma a outro provérbio, o que nos diz que a fome e o frio metem a lebre a caminho.

 

Num bom livro que li por estes dias, Rosa Montero escreve sobre a imaginação ("a louca da casa") como ferramenta essencial da literatura e, também, da vida. Em matéria de vida, os Celani e o café e restaurante que conseguiram estes anos depois de terem chegado são uma bela ilustração do papel da imaginação, mas ao serviço da necessidade e da sobrevivência. Estão todos na casa dos trinta, talvez até possam ser "millennials" (ou outro desses conceitos que alimentam a sociologia, os gurus e os livros de gestão, motivação e ajuda), mas - sem crítica para aqueles, apenas registo de factos - a sua necessidade de imaginação e a sua fome de experiências são de outro mundo, um mundo que ainda existe muito por essa Terra fora, e que às vezes só vemos quando olhamos para lá da bolha de conforto (e às vezes de tédio saciado) em que vivemos.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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