Paulo Carmona
Paulo Carmona 14 de março de 2018 às 19:30

Os portugueses merecem a democracia?

Até Rui Rio colabora, com pactos sobre a justiça… como se a possibilidade de corrupção na magistratura e o atraso na justiça que destrói empresas e desespera cidadãos não fosse muito mais importante do que o "preocupante" segredo de justiça.

A FRASE...

 

"Se houvesse uma rebelião ideológica, digamos assim, em termos de bancada, isso iria contra os regulamentos."

 

Manuela Ferreira Leite, TVI24, 22 de fevereiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

A pergunta cheira a heresia ou imoralidade. Claro que os portugueses merecem ter o melhor sistema de governação, ou o pior à exceção dos outros todos, como diria Churchill… sim, mas o que fizeram os portugueses para o ter, ou fazem para manter esse sistema superior e merecê-lo? Pouco. Uns capitães sem medo abanaram um regime caduco e deram-nos a liberdade, sob o olhar agradecido da multidão, incluindo muitos que semanas antes davam vivas a Marcelo Caetano no Terreiro do Paço. Depois veio a bravura de Mário Soares na Alameda e de milhares de portugueses incógnitos por esse país.

 

Ou seja, o povo não exigiu a democracia, sem tradição em Portugal aliás, mas foi abençoado com ela. Talvez por isso não seja exigente com a mesma, nem se esforça por melhorar ou escrutinar o seu exercício.

 

Isto a propósito das frases infelizes sobre o respeitinho dos deputados do PSD ao líder, e é se querem voltar às listas. Portanto, os deputados devem abster-se de ter opinião. Então, para que servem? E se o partido for Governo? Onde está a separação de poderes? Como conseguem fiscalizar e legislar se estão submetidos à vontade do Executivo?

 

Também por isso um primeiro-ministro tem muito poder em Portugal, demais… Os "checks and balances" não funcionam. Todos dependem do PM para as nomeações, ou da AR que segue as "recomendações" do PM. E muitos necessitam dessas nomeações para terem vidas dignas. Reguladores independentes dependem de quem os nomeou e alimenta, os fiscalizadores perguntam o que devem fiscalizar, etc. Todos se calam e seguem. Sobra a justiça, porque o PM vai mostrando ao Presidente que os seus poderes são poucos ou nenhuns, e os afetos não compram bifes. A campanha contra a mais desassombrada e independente procuradora de que há memória já começou. Alguém que não desarma perante poderosos, das poucas a fazer um real escrutínio da atividade política e de políticos, seres humanos, e como tal pecadores, a quem os portugueses entregam acriticamente o governo da nação.

 

Até Rui Rio colabora, com pactos sobre a justiça… como se a possibilidade de corrupção na magistratura e o atraso na justiça que destrói empresas e desespera cidadãos não fosse muito mais importante do que o "preocupante" segredo de justiça. Nem a oposição…

 

Deveríamos estar mais atentos e merecer a democracia, ou o que resta dela.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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