Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 08 de março de 2018 às 19:20

Os sinais políticos das vitórias populistas  

O populismo foi o grande vencedor das eleições legislativas em Itália. Até no país que já escolheu Berlusconi, os resultados são surpreendentes e mostram um sinal de aviso aos partidos tradicionais por toda a Europa.

As eleições em Itália, um dos países mais poderosos, mas também um dos mais endividados da Europa,  mostram  que o eleitorado se afastou dos partidos tradicionais.  A erosão do sistema partidário italiano não é uma novidade, particularmente depois da implosão da democracia cristã e da transformação do partido comunista. Mas desta vez os eleitores escolheram, sem sombra de dúvidas, movimentos anti-sistema, quer à esquerda quer à direita, se ainda for possível falar dessa geometria política no quadro parlamentar transalpino.

 

O Partido Democrático, que liderava a coligação no governo, era o último dos grandes partidos (herdeiro do Partido Comunista, mas que se transformou num partido da família socialista europeia) e sofreu uma pesada derrota. Por força das circunstâncias será importante para uma aliança num futuro governo.

 

Neste quadro de vitória de extremistas e populistas, até Berlusconi, o primeiro político ocidental ao estilo de Trump, antes de alguém sonhar que Trump seria Presidente dos Estados Unidos, é praticamente um centrista moderado.

 

A governabilidade de Itália é um assunto importante para a nossa vida, porque tem uma dívida colossal e o sistema bancário tem revelado sinais de fragilidade. E como já se viu com a modesta Grécia, qualquer abalo sísmico sentido nos mercados financeiros, em qualquer parte da Europa, tem fortes réplicas noutros países, particularmente nos do Sul. 

 

A fadiga causada pelos políticos tradicionais, aliada aos problemas gerados pela crescente imigração, à falta de esperança dos mais jovens, que enfrentam um mercado de trabalho cada vez mais precário,  cria condições para estas ondas populistas. Itália não é o único país onde se regista este fenómeno político. A extrema-direita alemã já entrou no Parlamento, a Frente Nacional está consolidada em França. O voto do Brexit reflecte também esse protesto contra as desigualdades da globalização. E é o mesmo voto de protesto contra um sistema que falhou a dar respostas  à vida das pessoas que levou  milhões de americanos a escolher  Trump.

 

Há outros países em que os eleitores escolheram pessoas fora do sistema, que não são extremistas. É o caso de Macron, que de jovem ministro da Economia do governo socialista francês opta por concorrer por conta própria ao Eliseu. E em certa medida foi o que aconteceu em Portugal com a eleição do actual Presidente da República, que fez uma campanha à margem dos partidos, beneficiando da notoriedade televisiva, e hoje goza de uma popularidade ímpar na história da democracia portuguesa.

 

Saldo positivo: copo cheio a três quartos

 

O mais recente relatório da Comissão Europeia acaba por ser elogioso para Portugal. O comissário Moscovici defendeu que Portugal deve prosseguir reformas estruturais para fazer face aos desequilíbrios económicos que subsistem, mas na apresentação do documento destacou o que já foi feito. "Um copo cheio a três quartos", considerou, ao enumerar os progressos substanciais na situação de Portugal, que está melhor em todas as frentes. Este é um sinal de que os ventos europeus são menos severos.

 

Saldo negativo: a nova guerra de trump

 

A ameaça de guerra comercial por parte de Donald Trump, numa campanha proteccionista que vai contra o espírito da América, a campeã do comércio livre, é um sinal preocupante. Se a ideia não for travada em Washington, e a maior parte dos congressistas republicanos são contra as políticas proteccionistas e restritivas do comércio, o mundo arrisca uma grave recessão e aumenta a insegurança militar. A verdade é que ninguém ganha com estas ameaças, que só funcionam para demagogia política.

 

Algo completamente diferente: a justiça está a fazer o seu trabalho

 

O caso das toupeiras descobertas na justiça para fazerem passar informação de processos é muito grave. Tal como são os casos de subornos e as ligações perigosas na justiça reveladas nas operações Lex e Fizz. Mas o facto de tudo isto estar a ser alvo de investigação mostra que a máquina da justiça, particularmente o Ministério Público e a Polícia Judiciária, está a fazer o seu trabalho. Mas tal como o estúpido que olha para o dedo quando o sábio aponta para as estrelas, há quem queira voltar para o tempo antigo em que tudo o que incomodasse os poderes era arquivado e os cidadãos nada sabiam. 

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comentários mais recentes
Marita Bastos 09.03.2018

E aqui temos O DESLUMBRADO / OPORTUNISTA / DEMAGOGO E POPULISTA...CDS!!!

Mr.Tuga 09.03.2018

Mais vale "populistas" italianos do que a TRAMPA mal cheirosa de politiqueiros tugas....

Ciifrão 09.03.2018

Não sei se foi vitória do populismo ou do comodismo, as pessoas querem tudo a título gracioso, o primeiro que lhes prometa esta maravilhosa existência tem de imediato o seu apoio.

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