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Fernando Braga de Matos 27 de Março de 2009 às 11:51

Os árbitros do pensamento

Onde se sustenta que os chamados "bem pensantes" politicamente correctos tentam impor o pensamento normalizado, se não com bastão de borracha, pelo menos pela pressão psicológica.

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Onde se sustenta que os chamados "bem pensantes" politicamente correctos tentam impor o pensamento normalizado, se não com bastão de borracha, pelo menos pela pressão psicológica.

Na semana passada, terminou um estudo de 6 anos, no Parlamento Europeu, com o fim de fazer desaparecer das línguas europeias vocábulos identificadores de género. Assim ficam aconselhados os povos a fazerem extinguir o "sr." e "srª" que antecedem os nomes próprios, passando a usar-se simplesmente o nome e a função ou cargo (p.e. António Ramalho Eanes, reformado). Entre outras recomendações do mais alto interesse em prol da igualdade, destaca-se também o extermínio do genérico masculino, como em "os médicos", passando esses e essas a ser designados por "pessoas que se dedicam à medicina".

Enquanto o pessoal politicamente correcto (PC) anda entretido com estas fundamentais questões, a gente normal fica sossegadamente divertida. O problema é que o dito grupo raramente se revela assim anódino. Peritos em usar insulto e intimidação verbal, esquecem facilmente a fundamentação do ponto de vista.

A táctica é velha, consistindo em fazer colar ao oponente uma ideia de desvalorização, de modo a que quem esteja a formar opinião fique constrangido se identificado com a orientação odiosa. É a pressão psicológica, não o mérito do argumento, que se usa para ganhar adeptos e vencer discussões.

Na semana passada, vimos os "bem pensantes" na sua melhor forma, quando Bento XVI se pronunciou em África sobre o uso do preservativo para protecção contra a SIDA. As notícias que li diziam: "Papa condena o uso do preservativo". Sendo Ratzinger um académico e um racionalista, fiquei céptico quanto ao exacto enunciado. Realmente, o que ele disse foi diverso: "Não resolve o problema... antes o agrava". E quais são os factos? Em países como a Swazilândia e o Botswana, onde se aplicou a estrita receita do preservativo, as coisas pioraram, mas não onde se deu predominância à abstenção e fidelidade conjugais, como o Quénia e a Etiópia. No final, e segundo a maioria dos especialistas, parece que o remédio óptimo é a combinação das três coisas - a evidente receita cumulativa(1).

Seja como for, o que importa para ilustrar o meu ponto de vista, é que a inundação de insultos que se seguiu, que chegou ao apodo de "criminoso", não demonstrou qualquer preocupação de discutir, criticando, antes de rebaixar por via do ultrage . As coisas até chegaram ao ponto do feérico quando um dos grandes corifeus do PC, o nosso vizinho Zapatero, mandou bombardear a África com um milhão de preservativos pouco usados (ou foram antes pelo correio, já nem sei), retaliando contra Bento XVI.

Outro tema em grande voga, que provoca um verdadeiro êxtase PC, é o do casamento homosexual.

Aqui os argumentos são simples, com suficiente mérito de ambos os lados. A favor, salienta-se a igualdade de direitos; no oposto, o simbolismo da família tradicional e a criação de uma figura idêntica ao casamento, vulgarmente chamada "união civil", como existe em França e Inglaterra.

Porém, como sempre, os "bem pensantes" pró-casamento gay entram rapidamente na invectiva e na estridência. Por exemplo, na cerimónia dos Óscares, o conhecido actor e activista, Sean Penn, declarou no discurso de agradecimento, em tom emocional, que os opositores deviam ter "vergonha". Podia ter salientado o valor da ideia; preferiu vilipendiar quem se opusesse. Do mesmo modo, cá na terrinha, no conhecido programa "Prós e contras", a que assisti, fiquei impressionado com a vociferação de apoiantes e pouco surpreendido do modo como rapidamente estavam a acusar os oponentes de "homofóbicos". Típico.

Neste furor politicamente correcto não escapa ninguém que se atreva a transgredir, até sem intenção, nem mesmo o reitor de Harvard. Edward Summers, catedrático, antigo secretário do Tesouro de Clinton e actual principal conselheiro económico de Obama, lá teve que largar a função depois de ter assinalado que na universidade se notava deficiente prestação das mulheres nas carreiras de matemática e ciências, deixando como hipótese causal possíveis diferenças genéticas entre os sexos. Aflorou também outras hipóteses como menor motivação por razões familiares e de maternidade, mas a heresia estava dita e a censura das feministas não lhe perdoou. Claro que são as de tipo castrador, mas têm lobby, capacidade de insulto e furor vingativo. E o Larry lá teve que se demitir no furacão a que o Boston Globe chamou "feminist takeover".

É para mim evidente que, no mundo civilizado e esclarecido, os homens são admiradores das mulheres e, sendo heterosexuais, até podem ir ao ponto da alienação mental (daí a designação científica "louco por mulheres").Pelo menos, até por simples decência, desejam a igualdade de direitos e de oportunidades, para além de condenarem com veemência todas as práticas de subjugação das mulheres. Mas toda a gente há-de querer conhecer as razões de diferenças, desde a superioridade dos homens em bridge e xadrês até ao maior sucesso feminino no acesso às universidades ou à sua maior longevidade. O que for facto é facto, e não se pode recusar só porque infringe convicções politicamente correctas. No acesso ao conhecimento não é admissível o preconceito, apenas amor à sabedoria e à verdade. Mas, amigos leitores (ou melhor, amigas pessoas dedicadas à leitura), como isto vai, qualquer dia até contar anedotas de loiras nos proíbem.

(1) Apresso-me garantir, não vá algum PC partir-me as janelas cá de casa, que sou completamente a favor do preservativo, até por razões anticoncepcionais e não apenas de protecção contra doenças sexualmente transmissíveis.


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