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Paulo Pinho 16 de Novembro de 2010 às 12:27

Os bons especuladores

O mercado financeiro é constituído por agentes com expectativas e atitudes muito diferentes.

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Em particular, o mercado de dívida soberana há muito que deixou de ser o palco exclusivo de conservadores gestores de activos que procuravam um investimento seguro, com capital e juros certos e garantidos, susceptível de satisfazer clientelas genericamente classificadas como "as viúvas e os órfãos". Investimentos seguros são pouco atractivos para os especuladores que apostavam em variações do risco de crédito. Mas a dívida pública de taxa fixa sempre atraiu quem procurava apostar em movimentos das taxas de juro. Esse tipo de especulação sempre ali existiu. E, em várias ocasiões, o próprio Estado português actuou nesse mercado com objectivo de tirar partido das suas expectativas de variação das taxas, assim se comportando como especulador. Nos anos anteriores à criação do euro, Portugal foi grandemente beneficiado pelos especuladores que apostaram que o nosso país iria integrar o grupo de estados fundadores da moeda única europeia. Tais agentes não regateavam empréstimo a Portugal, desde que fosse a taxa fixa, contribuindo para a loucura gastadora que então se gerou.

Ganharam. Mas convém não esquecer que perderam os que especulavam em sentido contrário.

Nos tempos mais recentes criaram-se condições propícias para uma desenfreada especulação em torno da dívida de vários países, designadamente Portugal. Não se trata de especulação em taxa de juro mas antes, infelizmente para nós, em risco de crédito. Não vale a pena escamotear o óbvio: tal especulação só é possível porque tais países entraram em risco de incumprimento. Isso não é culpa dos mercados, nem tão pouco das agências de "rating", que não passam (ambos) de portadores das más notícias. O problema está no facto de alguns países não terem honrado os compromissos que assumiram em Maastricht aquando da sua adesão ao euro. O estado das suas finanças públicas permite dúvidas quanto à evolução do respectivo "rating". E isso conduz, inevitavelmente, à especulação. Em dois sentidos.

Por cá é habitual falar de quem especula "contra nós". Ou seja, daqueles que, perante as sucessivas evidências de que as nossas finanças públicas estão descontroladas, de que o Governo anda totalmente à deriva e é incapaz de controlar a execução orçamental e de que o Parlamento é incapaz de trabalhar harmoniosamente para encontrar uma solução de Regime para os graves e estruturais problemas do Estado, entendem que Portugal irá entrar em incumprimento e terá de recorrer à ajuda externa. Sejamos claros: estes senhores especulam contra nós apenas e só porque lhes damos razões para isso.

Mas, convém perceber, existe quem aposte exactamente no sentido oposto. Ou seja, existem aqueles que acreditam que o sector exportador português será capaz de manter uma dinâmica de crescimento susceptível de ajudar o país a ultrapassar a crise actual, sem recurso a ajuda externa e que, a médio prazo, o "rating" da República subirá. Esses "bons" especuladores compram a nossa dívida quer em mercado primário, contribuindo para o financiamento do deficit público, quer no secundário, ajudando a travar a acelerada subida das "yields". Sem eles, porventura, aquelas já estariam perto dos 8%. Não nos ajudam por causa dos nossos bonitos olhos: apostam em nós para lucrarem aquando da concretização da nossa melhoria e correspondente descida das "yields" e valorização das obrigações que compraram.

E como corre essa estratégia? Mal. Há duas semanas esses "bons" especuladores lá foram ao leilão de dívida pública e compraram. Cerca de uma hora após o fim do mesmo ficaram a saber que os dois maiores partidos não se tinham entendido quanto ao Orçamento do Estado. Ou seja, poucas horas após nos emprestarem dinheiro já estavam a sofrer menos-valias equivalentes ao juro de um semestre. E tudo por causa do "timing" escolhido pelo Governo para anunciar o rompimento com o PSD. Não admira que alguns nos chamem pobres e mal-agradecidos. Aos que voltaram ao leilão seguinte não faltaram novas surpresas: após comprarem dívida a uma "yield" de 6.8% saem notícias sobre a indisponibilidade dos contribuintes alemães em pagar a irresponsabilidade de quem aderiu a uma moeda sem honrar os correspondentes compromissos (algo que a própria Alemanha já havia feito) e que o aumento de risco desses países conduziu a "Clearnet" a aumentar as margens a quem, através dessa câmara de compensação, transacciona as respectivas obrigações. Em poucas horas a "yield" subiu aos 7.4% e os "nossos" credores-especuladores perdiam cerca de 4.5% do seu capital.

Portugal, nos mercados financeiros, vive hoje uma situação de "fio da navalha": qualquer perturbação séria na nossa credibilidade como devedor pode desencadear uma situação de pânico entre aqueles que, tendo especulado a nosso favor, sintam ter de liquidar as posições longas abertas em risco português com vista a limitar as perdas. Tal "panic selling" da dívida portuguesa é uma possibilidade. E não serão uns parcos trocos de Timor-Leste que o conseguirão parar. Convinha, talvez, que quem nos governa, assim como a classe política em geral, estivessem mais atentos a essa possibilidade, dando prioridade absoluta à gestão das expectativas dos mercados e ao cumprimento da execução orçamental. O "Wall Street Journal" falava abertamente, ainda na passada semana e em artigo de primeira página, na falta de credibilidade da classe política portuguesa. Já não nos restam muitos amigos nos mercados. Convinha cuidar deles. Antes que se transformem em inimigos…


Professor da Universidade Nova de Lisboa
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