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Frederico Bastião 27 de Março de 2009 às 11:26

Os brioches de Maria Antonieta

No passado dia 13 fiquei admirado com a aprovação pelo nosso Parlamento de uma lei limitando a quantidade de sal no pão, com o objectivo de nos tornar mais saudáveis. Sexta-feira 13 é dia de pouca sorte...

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No passado dia 13 fiquei admirado com a aprovação pelo nosso Parlamento de uma lei limitando a quantidade de sal no pão, com o objectivo de nos tornar mais saudáveis. Sexta-feira 13 é dia de pouca sorte, pensei, e os nossos deputados deviam era estar quietos. Então eles é que decidem se devemos ou não ser saudáveis e como? É a partir de agora que passarão a ser conhecidos como os pãezinhos sem sal da democracia portuguesa, excepto aquele deputado que foi insultado há uns dias, que será mais conhecido como o pão com chouriço.

Mas, se assim pensei na altura, como os meus queridos leitores bem sabem, não costumo ceder aos meus impulsos e gosto de analisar as questões de uma perspectiva científica. Dediquei, então, algum tempo ao estudo da questão e das possíveis razões que motivaram os nossos deputados, mesmo que aparentemente tão insondáveis como os desígnios de Deus, e são as conclusões a que cheguei que pretendo partilhar.

Qualquer aluno do primeiro ano de uma faculdade de Economia sabe que o pão é o exemplo típico de um bem de Giffen. Que é que isto significa?, perguntarão os meus leitores. É simples: para a generalidade dos bens, à medida que o preço aumenta, nós consumimos menos desse bem e mais de outros, o efeito-substituição. Contudo se o preço do pão aumenta, os consumidores de baixo rendimento comem mais pão, pois não há outro alimento mais barato para o substituir. Mais, como gastarão mais dinheiro a comprar pão, são obrigados a comer menos bolachas, tostas ou bolos, e a comprar ainda mais pão para se alimentarem. Et voilà!, como diriam os franceses, país onde o aumento do preço do pão e as queixas generalizadas da população levaram a Rainha Maria Antonieta a responder: que comam brioches. Como é sabido, a Rainha perdeu a cabeça.

Esta análise clássica, contudo, não considera o impacto das emoções na tomada de decisões. Ótu Komikala, investigador da Universidade de Bonpain, chama a atenção ao papel da inteligência emocional e da inteligência artificial na racionalidade do consumidor: os consumidores, nas suas decisões, não olham apenas ao dinheiro mas também ao que gostam e estão habituados a comprar e à forma como a sociedade interpreta as suas escolhas de consumo. No nosso caso concreto, o que quer isto dizer? Que os portugueses gostam do pão com sal e, portanto, reagirão negativamente a esta medida, consumindo menos pão e ficando com mais dinheiro para outros bens como os bolos. Em consequência, as nossas estatísticas irão demonstrar uma redução de consumo do pão e um aumento do consumo de bolos, com consequências desastrosas: ao ver os portugueses comportarem-se desta maneira, os nossos parceiros comunitários dirão: "Crise, em Portugal? Qual crise? Vejam que quando nós apertamos o cinto, eles comem mais éclairs, duchesses e croissants!".

Mas, salienta Komikala, este é o aspecto comportamental ligado à inteligência emocional dos portugueses. Mas outro há ligado á inteligência artificial, isto é, assentando da aprendizagem e a nossa capacidade de pensar out of the box. Os efeitos da medida na nossa economia não se ficam por aqui. Como qualquer aluno do primeiro ano de uma faculdade de economia também dirá, existem também os bens designados por complementares, que se caracterizam por serem consumidos conjuntamente. São exemplos deste tipo de bens o café e o açúcar e, como os meus leitores mais atentos já adivinharam, o pão e a manteiga. Quer isto dizer que os portugueses que antes comiam pão com sal e manteiga sem sal, os mesmos que agora os nossos deputados querem obrigar a consumir pão sem sal, vão passar a barrá-lo com manteiga com sal, pois é o que gostam.

É, então, esta lei uma medida pouco inteligente e que vai prejudicar o País? Não, o efeito final será positivo, embora por razões diferentes das que animam os nossos deputados. Passemos a vê-las.

Em primeiro lugar, como visto vamos no final consumir menos pão e mais manteiga, como vimos atrás. Ora, como a manteiga tem um valor superior ao do pão (como dizem os economistas, tem mais valor acrescentado), o nosso PIB irá aumentar. Temos assim mais uma medida para combater a actual crise.

Em segundo lugar, esta medida dos nossos parlamentares vai simultaneamente propiciar maior receita de IVA, portanto vai combater o défice orçamental.

Finalmente, em terceiro lugar, a nova lei pretende reduzir em 8 g a quantidade de sal por quilo de pão. Como uma carcaça tem cerca de 30 g, isto significa uma redução de 0,24 g na quantidade de sal por carcaça. Se cada português consumir três carcaças por dia (pequeno-almoço, almoço e jantar), temos um redução 0,72 g no consumo diário de sal. Ou seja, 7,2 toneladas por dia no país todo (0,72 vezes 10 milhões de portugueses) e, ao fim de um ano, 2628 toneladas. Que faremos com o sal que assim nos sobra? Vamos exportá-lo e, como nos disse o nosso Presidente, a exportação é a via saudável para promover o nosso crescimento económico. Assim, temos uma medida dita uíne-uíne: todos nós ficaremos mais saudáveis e a nossa economia também ficará mais saudável.

Só restará um pequeno problema: é que todo o português se irá queixar - e não perdoará - que continue a pagar o mesmo por uma coisa que pesa menos oito gramas. Ninguém vai gramar isto.

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas.
Quando lhe perguntámos se há portugueses que não vão mudar o seu consumo de pão, Frederico respondeu: "Os presidiários, que já só estão a pão e água!"


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