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Rui Pedro Batista Rui.Pedro.Batista@hotmail.com 03 de Agosto de 2006 às 13:59

Os capitalistas também têm coração?

Abra um jornal, avance até à secção de economia e negócios e repare nos títulos: «Lucros da banca em alta», «Empresa Xpto aumenta resultados», «Multinacional quer reduzir custos para distribuir mais dividendos».

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É assim. Por todo o lado. Aqui neste país, banhado pelo Atlântico, ou do outro lado desse imenso mar. Nos países do Sol Nascente. O capitalismo dizem alguns é o culpado. O capital aperta a classe trabalhadora. Para ter mais capital. E para quê?

1. Os ricos estão mais ricos, ou os pobres mais pobres?

Não há dúvida de que as grandes empresas, as maiores fortunas familiares crescem a olhos vistos. As grandes multinacionais são hoje mais poderosas do que nunca e ao mesmo tempo as gigantes fortunas globais conseguem reter mais recursos do que alguma vez aconteceu. São cada vez menos os que detêm cada vez mais recursos. Mas em termos proporcionais como é que se posiciona toda a restante população? Será que essa imensa massa de gente vive hoje melhor do que há duas ou três décadas atrás? Ou a divisão de recursos tende a criar cada vez mais desigualdades?

A resposta tem uma regra e uma excepção. A excepção é constituída por alguns países (poucos, é certo) que conseguiram nos últimos 20 ou 30 anos reduzir de forma consistente a distância entre os mais ricos e os mais pobres. A solução tem sido quase sempre incrementar os rendimentos dos pobres, tentando não afectar fortemente os mais ricos. Até porque estes podem facilmente deslocar o seu dinheiro para outro local qualquer do planeta.

Depois temos a regra. Em quase todos os países mais desenvolvidos do mundo a distância entre ricos e pobres está a crescer. De acordo com o coeficiente Gini, calculado pela OCDE e Banco Mundial, o Brasil ocupa a primeira posição em termos de desigualdade. É o país considerado no estudo onde os pobres vivem pior quando se compara a vida dos ricos que vivem no mesmo país. Note-se que este rácio calcula desigualdade e não pobreza isoladamente.

Mas se este líder do ranking não surpreende, os lugares que se seguem deixam muita gente de boca aberta. Estados Unidos da América, Reino Unido, Alemanha e França. São quatro das oito economias mais poderosas do mundo. E ainda assim estes Estados de países desenvolvidos não conseguem garantir um sistema que aproxime a forma como ricos e pobres vivem nesses países.

2. O dinheiro afinal não garante felicidade?

Curioso é verificar que alguns «novos ricos», ou sendo mais correcto «novos bilionários» estão a adoptar uma postura bem diferente na hora de entregarem as chaves do cofre da sua fortuna. A tradição apontava quase sempre para a entrega uma rechonchuda herança a alguns, descendentes, que terão como único objectivo na vida conseguir chegar ao fins dos seus dias ainda com algum dinheiro nos bolsos para pagar o seu próprio funeral. E recorde-se que nem sempre essa tarefa é foi fácil. A história está cheia de gigantes heranças que foram gastas mais depressa do que teoricamente seria possível.

Mas a história está a mudar. Uma nova tendência, na verdade iniciada no século XIX por John Rockefeller, o primeiro barão global do petróleo, consiste na entrega de largos milhões das respectivas fortunas para beneficiar causas nobres.

Recentemente foi a vez do investidor Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo e de Bill Gates surpreenderem o mundo. O primeiro anunciou que vai doar 85% da sua fortuna de 43 mil milhões de euros a instituições filantrópicas. Desse montante, quase 30 mil milhões de euros vão direitinhos para os cofres da Fundação Bill e Melinda Gates. Ora esta instituição, criada pelo homem mais rico do mundo, e que revolucionou o software nos últimos 25 anos, fica agora com mais de 60 mil milhões de euros para continuar a desenvolver s projectos ligados à melhoria dos sistemas de saúde na Índia e em África, onde aliás já aplicou 6 mil milhões de euros desde 2000.

Esta fundação tem ainda um largo conjunto de outros projectos a funcionar. Um deles consiste na abertura de linhas de micro crédito, com o objectivo de ajudar mulheres pobres a iniciarem um negócio próprio.

Por cá os montantes doados são bem menores. Falta de tradição mas sobretudo menor dimensão das fortunas são as duas principais razões. Mas não nos podemos esquecer da maior doação levada a cabo por António Champalimaud. O empresário doou 500 milhões de euros para criar uma fundação na área da saúde.

3. Estão a acabar as grandes heranças?

Esta nova forma de aplicar os milhões ganhos está também a conquistar os herdeiros. Por exemplo os legatários de Sam Walton, o criador da Wal-Mart, que lhes deixou uma fortuna de 90 mil milhões de euros, declararam recentemente ao jornal New York Times que pretendiam entregar ainda mais dinheiro a instituições de apoio aos mais carenciados. E aproveitaram a ocasião para revelar que em 2004 «só» tinham doado 127 milhões de euros.

Aliás de acordo com o centro de estudos Giving USA, os americanos doaram 260 mil milhões de euros em 2005, mais 6% do que no ano anterior. Segundo os census dos Estados Unidos da América, entre 2030 e 2040 a geração baby boomer – formada pelos americanos que nasceram logo depois da Segunda Guerra Mundial – deverá deixar cerca de 10.000 mil milhões de dólares aos seus herdeiros. Ora feitas as contas, se 2% desse dinheiro for canalizado para filantropia, são 200 mil milhões de dólares. Ou seja seria possível criar mais três instituições da dimensão da Fundação Gates.

Certamente alguns futuros herdeiros deverão estar neste momento a sentir alguma ansiedade. Na hora de abrirem o testamento poderão surgir mais algumas surpresas. E nem sempre boas. Mas como respondeu Warren Buffett, na hora que anunciou que iria doar 85% da sua fortuna para obras sociais, à pergunta como iriam reagir os seus herdeiros: deixo-lhes o suficiente para não terem problemas com o dinheiro, mas terem a ambição de quererem continuar a criar riqueza. E esse herança na prática acabará por ser bem mais valiosa do que incentivar a ociosidade.

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