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Mário Negreiros 26 de Novembro de 2004 às 13:59

Os Cínicos

É forçoso admitir que o cinismo passou a ser (quando?) um dos dados característicos do que, colectivamente, somos.

É preocupante a tranquilidade com que a generalidade dos portugueses recebeu as advertências, feitas na semana passada por Mário Soares, de que «há uma visível crise de confiança no Governo, partidos, instituições, na justiça, nos políticos, na educação, na cultura, na ciência, na saúde, na segurança social, no trabalho, nos media» e de que «é necessário restituir a voz aos cidadãos, ouvi-los, se queremos evitar revoltas descontroladas ou rupturas que poderiam conduzir-nos a aventuras indesejáveis». E quanto mais penso nas razões que podem explicar a aparente apatia com que palavras tão graves foram ditas, mais preocupado fico.

A primeira explicação para semelhante apatia é o facto de - apesar de, desta vez, a coisa ter sido dita por uma figura com um peso específico considerável - não ser nada de muito diferente do que já vem sendo dito por outros, embora menos cotados, formadores de opinião e, mais do que isso, por ser muito semelhante ao que é repetido, todos os dias, milhares de vezes ao dia, como senso comum, por anónimos portugueses, em conversas privadas? demasiadamente privadas. Sim, porque quem for a um café para ouvir os portugueses a falar de si próprios não pode imaginar senão um povo de guerreiros inconformistas, muito conscientes dos seus direitos, possuidores de uma inquebrantável capacidade de indignação, dispostos a enfrentar todos os poderes para fazer valer a justiça, a honra e a dignidade - valores de que demonstram ter um senso muito apurado. Mas quem for a um posto de saúde, a uma repartição de finanças, a um tribunal ou mesmo a uma reunião de condomínio - a qualquer lugar onde as conversas privadas poderiam ter um sentido público - verá a apatia, o conformismo e, deixemo-nos de meias-palavras, a covardia de um povo.

Aí está outra das explicações possíveis para o facto de as advertências de Mário Soares terem caído no vazio: os cidadãos a quem o ex-presidente julga que se deve «restituir a voz» falam muito nos cafés, mas são os mesmos que se calam no posto de saúde, na repartição de finanças, no tribunal ou na reunião de condomínio. Os cafés - lugares que valem, entre outras coisas, pela inconsequência do que neles é dito - são o último espaço público que continua a merecer a confiança dos portugueses. Sintomático. Preocupantemente sintomático.

E o pior é que o sintoma não se refere necessariamente ao estado das instituições públicas, mas, fundamentalmente, ao estado em que se encontra o próprio povo português. E é forçoso admitir que o cinismo passou a ser (quando?) um dos dados característicos do que, colectivamente, somos. Esse é um estado de que dificilmente se sai porque, embora colectivo, se manifesta individualmente. «É preciso sacudir a depressão», disse Mário Soares. A sacudidela de que precisamos tem dimensões revolucionárias - tanto quanto o 25 de Abril! -, diria eu. Mas é mais difícil porque, embora necessariamente colectiva, é, por natureza, uma sacudidela individual, porque ética.

PS: Quando se fala em «rupturas» pensa-se logo em revoluções mais ou menos bolcheviques. Mais do que nas imagens da Rússia de 1917 seria ilustrativo pensar nas do Rio de Janeiro deste princípio de séc. XXI, onde o fenómeno se dá de maneira gradual - mais do que «ruptura», será um progressivo «desfiar» do tecido social - embora tão ou mais mortífera.

PPS: É evidente que quem estaciona o carro em cima do passeio não tem o direito de dizer um piu sequer sobre as instituições, os políticos, etc.

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