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António Mendonça amend@iseg.utl.pt 05 de Julho de 2004 às 13:59

Os desafios da Europa

Não obstante os mais recentes sucessos que parecem ter sido a introdução do euro e o alargamento aos países do centro e do leste da Europa, é indubitável que o projecto de integração europeia passa, actualmente, por uma crise profunda de identidade.

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Não obstante os mais recentes sucessos que parecem ter sido a introdução do euro e o alargamento aos países do centro e do leste da Europa, é indubitável que o projecto de integração europeia passa, actualmente, por uma crise profunda de identidade.

Esta crise manifesta-se, antes de mais, numa falta de ideias e de objectivos claros sobre o modo como o processo de integração na Europa poderá continuar a ser desenvolvido numa União a 25. Para lá da perspectiva de continuação do alargamento até limites que ninguém sabe muito bem onde ficam, pouco mais sobra do que um, tão ambicioso quanto inconsequente, projecto de união política, a que o recente acordo sobre o chamado Tratado de Constituição Europeia não foi capaz de dar suficiente consistência e, muito menos, de convencer a generalidade dos cidadãos europeus da sua importância e utilidade. Se dúvidas houvesse a este respeito bastaria recordar os fracos níveis de participação nas mais recentes eleições para o Parlamento Europeu.

A crise de identidade manifesta-se, por outro lado, nas dificuldades que a União Europeia, enquanto tal, tem revelado na gestão da sua relação com o parceiro do outro lado do Atlântico. Entre a recusa de seguidismo face aos Estados Unidos e a incapacidade de produzir uma posição autónoma e coerente sobre as questões candentes das relações internacionais - de que o Iraque é apenas o exemplo mais recente - muito pouco se vislumbra sobre o modo como a Europa poderá ultrapassar o défice de referências e de interesses comuns de forma a sustentar um posicionamento estratégico próprio de afirmação internacional.

A crise de identidade manifesta-se, também, na dificuldade que a Europa tem sentido em conciliar as tendências proteccionistas internas – de que a PAC é a expressão mais paradigmática – com a exigência de aprofundamento da cooperação internacional e de abertura a outros espaços e a outros processos de integração regional, entre os quais o Mercosul.

A crise de identidade manifesta-se, ainda, na incapacidade que a Europa tem revelado para encontrar internamente lideranças suficientemente fortes e credíveis, capazes, não apenas, de desempenharem um papel de referências integradoras de ideias e projectos mas, sobretudo, de impulsionarem novos desenvolvimentos da própria ideia de integração europeia de forma a adaptá-la às novas condições da Europa pós-soviética e às tendências mais vastas da globalização económica.

Como é óbvio, todas estas dificuldades têm sido potenciadas pela acção de uma crise económica profunda, que se arrasta há já alguns anos. Todavia, é importante que se reconheça que a dimensão e persistência desta crise não podem ser desligadas das apostas erradas que foram feitas em matéria de condução das políticas económicas e orçamentais e, sobretudo, da ausência de uma vontade e de instrumentos de intervenção colectiva à altura da profundidade e extensão dos actuais processos económicos de integração.

Para os mais cépticos o actual estado de coisas poderá configurar o princípio do fim do projecto europeu, tal como vinha a ser desenhado e concretizado desde o fim da segunda guerra mundial. Com efeito torna-se difícil de conceber como é que os objectivos iniciais de integração económica e política se poderão enquadrar no actual contexto de uma Europa a 25, ampliada na sua heterogeneidade e contradições.

Os mais optimistas tenderão a ver as dificuldades actuais como passageiras e a considerá-las como manifestações dos inevitáveis processos periódicos de ajustamento que se verificam em todos os processos históricos de construção de novas realidades económicas e políticas, como é o caso da integração europeia.

Entre uma posição e outra há, no entanto, espaço para considerar a situação actual como uma fase de transição e de abertura de novos caminhos que tanto poderão levar à diluição progressiva do projecto europeu, reduzindo-o a uma mera zona de comércio livre, com mais ou menos moeda única, como à construção de um novo ideal de Europa que permita, não apenas recuperar e reforçar os objectivos internos de coesão económica e social, como projectá-los à escala internacional através de uma inserção mais activa nas dinâmicas de globalização, e de uma postura mais consequente de apoio e incentivo à cooperação internacional e ao desenvolvimento económico.

Nestes processos de transição, como é sabido, o papel das lideranças é fundamental e delas depende em muito a escolha das opções que se abrem. É possível que a Europa continue como até aqui, gerindo inércias do passado e aceitando a redução do processo de integração a uma simples lógica de extensão de mercados. Mas é, sobretudo, necessário que encontre novas capacidades e vontades que lhe permitam suplantar a crise de identidade em que mergulhou e recuperar uma dinâmica de crescimento e de afirmação internacional.

A hora é de oportunidades. Veremos num futuro próximo se foram aproveitadas convenientemente.

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