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João Carlos Barradas 25 de Agosto de 2010 às 11:53

Os equívocos de "Wikileaks"

"Wikileaks" prepara a divulgação de mais documentos sobre a guerra no Afeganistão num ambiente de paranóia, secretismo e desinformação.

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O fundador do projecto, Julian Assange, viu-se, entretanto, alvo de acusações de comportamento sexual impróprio para com duas mulheres na Suécia.

Assange, acusado inicialmente de violação pela procuradoria de Estocolmo antes de passar a ser investigado por molestar sexualmente duas colaboradoras de "Wikileaks", denunciou o caso como uma campanha de intimidação e difamação inspirada pelo Pentágono.

As informações disponíveis indiciam tratar-se de um desentendimento pessoal entre os três envolvidos, mas o seu destaque mediático acabou por relegar para segundo plano outra polémica muito mais grave: a alegada tentativa de negociação entre "Wikileaks" e as autoridades norte-americanos sobre a divulgação de novos documentos da guerra afegã.

A grande fuga
A 25 de Julho "Wikileaks" publicou cerca de 75 mil documentos sobre operações militares entre Janeiro de 2004 e Dezembro de 2007. A documentação, sem trazer revelações de monta, foi previamente cedida a orgãos de informação credíveis dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha para potenciar o impacto das revelações.

Os relatórios confirmavam um quadro deprimente do esforço de guerra e a sua autenticidade não foi posta em causa. A Casa Branca, após deplorar o comportamento irresponsável de "Wikileaks", aproveitou para sublinhar que a gravidade da situação no terreno, descrita nos documentos, justificara a estratégia de reforço militar do presidente Obama.

"Wikileaks" afirma desconhecer a identidade da fonte. Já em Abril, ao divulgar videos de ataques de helicóptero em 2007 em Bagdad, que causaram a morte de 18 pessoas, incluindo dois jornalistas da Reuters, a organização referira desconhecer o responsável pela entrega do material (alegadamente um analista militar norte-americano acusado de ter ainda em sua posse correspondência diplomática).

Ao divulgar a documentação afegã "Wikileaks" não obliterou a identificação de colaboradores e informadores das forças militares da NATO e dos EUA ao contrário do que fizeram "The New York Times", "The Guardian" e "Der Spiegel".

Face às críticas de que tal procedimento colocou em risco as vidas de civis e militares, "Wikileaks" afirma ter desde então tentado negociar com o Pentágono a edição de mais 15 mil documentos em seu poder.

Assange afirma não dispor de meios financeiros ou humanos para processar a documentação e a organização terá, portanto, solicitado para o efeito a colaboração do Pentágono. Se esse apoio seria financeiro ou doutro tipo não ficou claro, mas o Pentágono negou quaisquer negociações, exigindo a devolução dos documentos.

O absurdo da situação põe a claro os muitos equívos em que assenta o projecto "Wikileaks".

Um anarquismo irresponsável
De Julian Assange sabe-se pouco. Nasceu em Townsville em 1971 e teve uma infância e adolescência aventurosas na Austrália. Das entrevistas que foi dando transparece uma filosofia anarquista de contestação a todos os poderes que o levou ao universo dos "hackers".

Em Dezembro de 2006 deu início, com parceiros não-identificados, à plataforma "Wikileaks".
A divulgação de documentos confidenciais relevantes, sobre corrupção no Quénia nomeadamente, foi firmando a reputação de "Wikileaks", apesar de surgirem no site outros materiais bastante duvidosos.

À medida apareciam mais documentos secretos de vários governos - da Austrália aos Estados Unidos, passando pela Tailândia ou a China - passaram a considerar Assange uma ameaça para a segurança nacional, mas a organização só saltou para a ribalta com os videos dos ataques em Bagdad.

A plataforma de todas as fugas segue uma filosofia excêntrica.

Oferece garantias técnicas e legais de não-identificação às suas fontes. Afirma publicar na íntegra toda a informação que lhe chegar (ainda que em certos casos proceda à edição do material), segundo vagos procedimentos de crítica interna e externa dos documentos por parte de colaboradores não-identificados.

"Wikileaks" declara, por exemplo, ter em conta "motivos e oportunidade" das suas fontes ao apresentarem documentos para publicação, mas como alegadamente ignora a origem das fugas de informação é impossível levar em conta tal critério.

Apesar de falar de um novo tipo de jornalismo dito científico, Assange ignora o confronto de várias fontes e o princípio do contraditório.

Para "Wikileaks" a autenticidade de um documento é irrevelante e o seu escrutínio cabe à comunidade mundial através do acesso online.

O financiamento da organização, que mantém servidores em vários países por motivos de segurança e protecção legal, é obscuro.

Doações e trabalho voluntário garantem a subsistência e Assange afirma ter recebido contributos de cerca de 1 milhão de euros desde o início deste ano, reconhecendo ter tentado explorar diversas formas de financiamento como uma tentativa de leiloar documentos a órgãos de informação que se frustou por alegada falta de interessados.

Um péssimo exemplo
Autoclassificada como plataforma transnacional a "Wikileads" assume diversas formas institucionais - na Austrália surge como a biblioteca digital "The Sunshine Press" na Alemanha recorre a uma fundação, a Wau Holland Stiffung - e revindica estar ao serviço da transparência, contra obfuscações, manipulações e corrupções governamentais ou empresariais.

Na verdade, "Wikileads" não cumpre nenhum dos rigorosos princípios de escrutínio e transparência que caracterizam projectos como, por exemplo, as "Secrecy News" promovidas desde 1991 pela Federation of American Scietists que publicitam e analisam documentação de interesse público e não-divulgada pelas autoridades sem motivos justificados.

"Wikileads"está sujeita a todas as manipulações por não apresentar garantias de escrutínio e responsabilidade pública. É um mero depósito para fugas de informação. Tudo pode ir lá parar e mesmo informação credível, relevante e de interesse público pode acabar comprometida por falta de escrutínio.

Assange é um fenómeno típico do anonimato e irresponsabilidade que a internet também propicia e a sua filosofia equívoca compromete outras iniciativas em prol da transparência administrativa e empresarial e assentes nos princípios democráticos de responsabilização pública.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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