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Mário Negreiros 27 de Março de 2007 às 13:59

Os grandes e os portugueses

Enquanto o programa da RTP "Grandes Portugueses" revelava António de Oliveira Salazar como o maior português de sempre, um estudo do Eurosondagem atribuía-lhe um modesto sétimo lugar, com 6,6% das respostas à pergunta "da lista de dez finalistas do concur

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Por outro lado, o vencedor da Eurosondagem, D. Afonso Henriques (21%), não logrou, na votação "oficial", mais do que um quarto lugar. O melhor disto tudo? A constatação de que há mesmo uma enorme distância entre o povo português e aquilo que a televisão apresenta como tal.

Há muito que a televisão para mim não passa de um aparelho transmissor de jogos de futebol. Fora disso está desligada, caladinha, para não fazer barulho. Na última vez em que vi um telenoticiário (já lá se vão uns dois meses), a última notícia, dada em tom de "olha só que engraçado", era o nascimento, algures na América Latina, de um desgraçado de um bezerro com cinco patas e dois sexos, uma deformação horrível, um animal em sofrimento, atracção engraçada de um circo de horrores.

O bezerro deformado era real, o tom é que era perfeitamente estúpido (e, antes que alguém acuse, quem deu o tom não foi a TVI, mas a festejadíssima SIC Notícias).

Também não ponho em dúvida a lisura da contagem dos votos do concurso da RTP. Aquilo é real. Deformado, mas real. A diferença está entre as senhoras e senhores que se dispõem a telefonar a uma emissora de televisão, ao custo de 60 cêntimos + IVA, para dar a sua participação num programa e aqueles que estavam em casa, a tratar da vida, quando um telefonema do Eurosondagem lhes apresenta dez nomes de que têm que escolher um.

Mais reais hão-de ser os segundos. Os que telefonaram para a RTP podem estar a serviço de uma corrente organizada (é sintomático que os dois primeiros lugares – Salazar e Cunhal – tenham sido figuras ligadas a pensamentos políticos ainda actuantes em Portugal).

O que aparentemente se passou no concurso da RTP passa-se todos os dias, e não só na televisão, embora mais nela: grupos organizados (às vezes meia dúzia de gatos-pingados) a fazerem-se passar pelo povo – essa massa sempre cheia de justiça e de razão, cuja voz, dizem, é a do próprio Deus.

E, mesmo que não houvesse salazaristas e comunistas a disparar votos de cada telefone que encontrassem pela frente (o concurso só admitia um voto por número de telefone), o universo de pessoas dispostas a pagar 60 cêntimos + IVA para participar num programa da RTP talvez não fosse o mais representativo daquilo que somos. Há, quero crer, uma multidão para quem a televisão não representa nada além de um electrodoméstico para ligar muito, muitíssimo de vez em quando. Esse povo existe mas não está na televisão. Ainda bem!

PS: O escândalo em Oeiras prossegue: vagas (pagas) da empresa municipal de parquímetros (PARQUE TEJO) vazias, passeios públicos tornados estacionamentos privados (e gratuitos) e, a quem se atreve a deixar o carro na vaga sem deixar moedinha no parquímetro, bloqueio, reboque e multa. Uma inversão moral. Uma falta de vergonha. E os peões a andar pelo meio da rua, que remédio?

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