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Os incidentes luminosos

A Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves, Eugénio de Andrade corresponderam a uma particular maneira de ser e de entender o mundo, e procuraram interrogar o sentido do tempo que lhes coube viver. A morte não melhora as coisas; porém, ...

A morte não melhora as coisas; porém, explica determinadas orientações do olhar, do compreender, do amar e do odiar.

Todos esses sentimentos emergiram à superfície, ao ponto de se confundir o exercício da política com a visão religiosa do Bem e do Mal. Conheci aqueles três homens de excepção. E cada um deles, independentemente do objecto da sua intervenção cultural e política, suscitou uma multiplicidade impressionante de reflexões e, de uma maneira ou de outra, exerceu profunda influência em várias gerações de portugueses.

Uma desmembrada tolice foi aquela, no programa Prós e Contras [segunda-feira, dia 13], de reduzir o «debate» a uma pergunta absurda: perdedores ou vencedores? Álvaro Cunhal foi, apenas, derrotado; não creio que tivesse sido vencido. Por uma razão soberana: o que serviu de fundamento ao seu combate persiste e, até, se agravou. Basta ver o mundo construído pelos «vencedores», sobre as ruínas do mundo dos «vencidos».

O conhecimento do estado actual das coisas não desempenha nenhuma função catártica, exactamente porque é a imperfeita organização de uma ordem imperfeita - e irremediavelmente condenada. O comunismo implodiu.

Contudo, as relações de valor mantêm-se, sustentando, inclusive, novas e selváticas formas de caracterização entre o mundo do trabalho e o capital. Cunhal sabia que as ideologias não são geométricas, que o socialismo fora transferido, mas que a possibilidade de identificar e de criar uma mediação entre necessidade e finalidade é algo de inato na condição humana.

No dia da morte do grande dirigente comunista, a RTP-Norte retransmitiu uma entrevista que, em 1991, ele concedera a Carlos Cruz. É um documento notável. A meio de amenidades, Cunhal incita-nos a objectar acerca daquilo quer os «outros» querem fazer do nosso destino. A grandeza do homem associa-se à índole inabalável do político. Não se trata de uma previsão nem de um cálculo dos riscos, desenvolvidos a partir da vulgata, mas sim de uma exposição pausada sobre ideologia, ética e perspectivas diversas que podem iluminar um considerável número de sombras.

Cunhal possuía uma concepção de Estado globalizante, de uma dimensão de que só conheço similar, em Portugal, no projecto de Afonso Costa. Não houve nenhum mal-entendido. E as partes beligerantes, no pós-Abril, fundamentavam uma áspera luta de classes. Os textos de Cunhal, nesse sentido, são muito claros. Mas errou, ou omitiu, em nome das ideias que recusam a renúncia. Eric Hobsbawm escreve [»Tempos Interessantes - Uma Vida no Século XX», edição Campo das Letras, Porto - 2005]: «Hoje o comunismo morreu. A URSS e a maior parte dos estados e sociedades construídos segundo o seu modelo, filhos da Revolução de Outubro de 1917, que foi a nossa fonte de inspiração, conheceram uma derrocada completa, deixando atrás de si uma paisagem de ruína económica e moral, de tal maneira que se torna agora evidente que o fracasso se encontrava desde o início inscrito no empreendimento». Nem por reconhecer a falência do projecto, o notável historiador marxista inglês deixou de ser comunista. Tal como Álvaro Cunhal.

O dirigente português arriscou uma proposta. Os «outros» apenas ambicionavam manter as prerrogativas. E dispunham de tudo: dos meios de persuasão, do poder que dá o dinheiro em proporções imagináveis ou inimagináveis. O decorrer dos acontecimentos é eloquente. E o País actual espelha a miséria, a fraude, a mentira. A classe dirigente criou leis para se proteger a si própria. Leis tão iníquas quanto obscenas, numa teia complexa, que apoia os seus retículos e se reproduz com rapidez impressionante.

Cunhal, como Vasco Gonçalves, defendia a oposição do direito ao facto consumado, à revolta e à revolução, reconhecendo, ambos, que os intervenientes socioeconómicos são factores que podem gerar o equilíbrio, desde que vigiados e regulados. Objectivo comum: transformar, alterar, fazer revolutear as coisas, as pessoas, o mundo.

Dois portugueses extraordinários alimentados pelo sonho do impossível. Do impossível? E um poeta incomum movido pela febre de dizer o indizível. E disse-o. Foram, os três, incidentes luminosos e, parafraseando Malraux, contemporâneos capitais. Levaram-nos a sonhar os sonhos que tinham a altura e a grandeza do homem.

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