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Frederico Bastião 16 de Janeiro de 2009 às 15:49

Os insultos de Huxley

Há coisas que nos distraem da crise económica e que nos levam a dizer, para citar Aldous Huxley, "Ó admirável Mundo Novo, que encerra em si tão extraordinárias criaturas!" Faço este comentário porque lá para o Norte, aproximando-se o referendo sobre a adesão de Viana do Castelo à Comunidade Intermunicipal do Minho-Lima (CIM), o líder do PSD de Viana acusou o presidente da Câmara de o ter insultado e ameaçado fisicamente no debate da passada segunda-feira sobre o tema.

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Meus queridos leitores, trata-se de um facto inadmissível numa democracia, quando estamos a trocar ideias sobre uma questão de interesse para uma população e está envolvido quem por ela foi eleito. Cada um deve ter o direito de expor as suas ideias e opiniões, sem se sentir de alguma forma coagido, pelo menos enquanto não faltar à Verdade (caso em que o insulto se justifica). Mas também não se pode fazer tão grave acusação e depois não a fundamentar – neste caso, qual foi o insulto? E que ameaça foi proferida? Para mais, como podem terceiros vir agravar o conflito, fazendo afirmações sem provar as suas próprias acusações, como o indivíduo que estando "presente na mesa do debate, confirmou insultos, escusando-se a revelar o seu teor", porque, como ele disse: "Lamento profundamente o que vi e ouvi. Aquilo que foi dito não é próprio". Qual é o problema em repetir o insulto que foi proferido? Não ser próprio? Como é que podia ser um insulto se fosse próprio?

Estas questões são muito importantes, meus caros amigos, como o mostrou o meu colega Vôutáh Trombah, da Universidade Nacional de Esmuy Taburro, no seu livro "Achète Mon Bouquin, Connard, Sinon Je Te Casse La Figure!" Nesse livro Trombah explica que o que é um insulto para uns pode não o ser para outros, que o que é um insulto num local pode não o ser noutro, e finalmente que o que é um insulto num momento pode não o ser noutra ocasião. Ora vejamos.

Tome-se a expressão (permitam-me alguma liberdade na tradução) "uma grande vaca". Uma grande vaca não é insulto nenhum se dirigido a um animal da espécie bovina, sexo feminino, de tamanho e peso avantajados, que produza uns 50 litros de leite por dia e tenha uns cornos de mais de um metro de envergadura. Aliás, permitam-me que acrescente que dizer "tens uns cornos de mais de um metro de envergadura" também não é insulto nenhum se dirigido a este animal. Aliás, gritar "Ó seu animal" também não seria insulto se gritado a esta vaca. Fica portanto provada a primeira parte da afirmação, que o que é um insulto para uns pode não o ser para outros.

Por outro lado, dizer a alguém que é um "filho da mãe", quando tal afirmação for proferida num cartório notarial, numa repartição pública ou conservatória do registo civil, não pode ser tomado como um insulto. Aliás, dizer a alguém, nestes mesmos locais, que é um "filho de pai desconhecido" não tem nada a ver com a mesma afirmação feita num bar, numa discussão sobre os resultados futebolísticos do fim-de-semana anterior. Fica assim provada a segunda parte da tese, isto é, o que é um insulto num local pode não o ser noutro.

Finalmente, e sobre o último ponto, note-se que há afirmações que, feitas às três da tarde a céu aberto, podem até ser altamente insultuosas mas que, a meio da noite e no calor da alcova, podem deixar de o ser. E também seria o caso se eu me chamasse Francisco e respondesse acertadamente às catorze perguntas do exame oral de Mecânica dos Fluídos III e o Professor me apelidasse de "Xico Esperto"; o significado não é o mesmo que quando eu passo à frente de dúzia e meia de pessoas na fila do supermercado. Então, o que é um insulto num momento pode não o ser noutra ocasião.

Espero, meus queridos leitores, ter aberto aqui uma nova perspectiva que vos levará a uma mais cuidada e proveitosa apreciação dos debates parlamentares. Mas voltando ao tema desta crónica, só foi aqui falado dos pretensos insultos, ainda não abordámos as ameaças físicas. Conviria neste caso, e para o mesmo fim do dos insultos, que os queixosos (ou queixinhas) que acusam um Defensor (de Moura) de ameaçar – o que, já de si, é impensável – clarifiquem uma questão primordial para a avaliação da gravidade da pretensa ameaça física: que parte da anatomia do líder do PSD foi ameaçada? E, já agora, como?

Frederico Bastião é Professor de Teoria Económica das Crises na Escola de Altos Estudos das Penhas Douradas. Quando perguntámos a Frederico o que seria para si um grande insulto, Frederico respondeu: "É alguém muito burro dizer-me que sou muito inteligente!"

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