Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Sérgio Figueiredo 02 de Novembro de 2004 às 13:59

Os nossos 2 As...

O senhor Moritz Kraemer é tão famoso entre os portugueses quanto o senhor Chris Pryce. Nunca ninguém deles ouviu falar. Nós não os conhecemos.Mas eles conhecem-nos. E têm uma opinião acerca daquilo que temos andado por cá a fazer. Pois há algo que nos obr

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Enfim, pode ser um pequeno detalhe, mas é que o resto do mundo acredita naquilo que eles dizem. E quer o senhor Pryce quer agora o senhor Kraemer não têm andado a dizer coisas simpáticas a nosso respeito.

Ambos trabalham em duas das mais prestigiadas agências de rating, a Fitch e a Standard & Poor’s, e têm, portanto, a missão de dizer aos credores internacionais quais os locais mais seguros para confiarem o seu dinheiro.

Portugal, como se sabe, beneficiou da conversão do engenheiro Guterres às maravilhas da moeda única, lá conseguiu integrar a união monetária da Europa e, desde então, vive em condições financeiras extraordinárias.

A República de Portugal paga juros mais baixos pelas dívidas contraídas pelo seu Estado do que, por exemplo, o Reino Unido. A comunidade financeira não desconfia mais dos ingleses por terem uma monarquia, mas por serem teimosos e recusarem o euro.

Sucede que Santana Lopes e Bagão Félix estão a desenhar uma política económica que, em pouco mais de três meses, já lançou mais dúvidas e desconfiança sobre a nossa capacidade de endividamento, do que todos os primeiros-ministros e respectivos titulares das Finanças juntos nos últimos quinze anos.

O senhor Pryce, da Fitch, questionou há duas semanas a capacidade de Bagão Félix para «enfrentar os graves problemas que se aproximam». Era uma opinião isolada.

Agora aparece o senhor Kraemer a explicar, tin-tin por tin-tin, as razões pelas quais a Standard está a considerar seriamente a hipótese de um «downgrade» ao rating português. E, em declarações a este jornal, assume o óbvio: «as acções e os discursos do novo Governo foram muito importantes para a nossa decisão».

E, assim, Portugal já não é considerado «estável». Agora somos «negativo». Ainda AA, mas a resvalar para o AA menos. Ou seja, também aqui descolamos dos países do euro e, com esta pedalada, rapidamente iremos convergir com a Grécia (que martela as contas ainda mais que nós) e com a Itália (que tem um «rating» à Buttiglione).

Ainda não é grave. E a situação pode perfeitamente ser revertida. Com acções e com discursos. De preferência coerentes. Não baixa impostos quem reconhece que o Estado enfrenta uma crise financeira grave e de carácter estrutural.

O que a Fitch e a Standard estão a dizer é que esta política económica não ataca essa crise orçamental - até a agrava. E chegam a esta conclusão por aquilo que o Governo faz e diz.

Estamos, por isso, pior do que imaginávamos. As agências internacionais não acham que Bagão e Santana se contradigam frequentemente. Dizem que estão de acordo - e esse é o problema.

Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias