Carmen Reinhart
Carmen Reinhart 19 de junho de 2016 às 20:30

Os objectivos incompatíveis da China

O compromisso da China em manter a taxa de câmbio constante parece ser incompatível com a recente adopção de políticas monetárias mais acomodatícias. Se o PBOC quer dar prioridade à estabilidade financeira e comprometer-se com o cumprimento do seu papel de credor de último recurso, então deverá ser preferível que aceite que a desvalorização é inevitável.

Ao mesmo tempo que as autoridades chinesas tentam resolver o que afecta a economia do próprio país, estão a perseguir dois objectivos que, quase certamente, revelar-se-ão incompatíveis. Muito raramente, os bancos centrais têm sido capazes de manter uma taxa de câmbio fixa durante um período prolongado de tempo, proporcionando liquidez aos bancos em dificuldades e a uma economia doente. Na verdade, a tarefa torna-se especialmente difícil, à medida que o necessário rigor monetário para sustentar a moeda intensifica a pressão sobre os bancos domésticos e a economia real.

 

Aqueles que procuram um esboço sobre o futuro da economia chinesa deveriam rever o que aconteceu na Tailândia em 1997, quando o colapso do baht precipitou a crise financeira asiática. Claro que a China de 2016 é, em muitos aspectos, diferente da Tailândia de 1997. Mas há semelhanças importantes na reacção às contínuas saídas de capital.

 

Depois de um crescimento prolongado do crédito, os bancos comerciais geralmente enfrentam um volume crescente de malparado. A resposta natural da política monetária é aumentar a liquidez, reduzir as taxas de juro e, em muitos casos, prestar assistência directa sob a forma de empréstimos do banco central. Isto foi exactamente o que foi feito, por exemplo, nas economias desenvolvidas após a crise financeira de 2008.

 

Mas reduzir as taxas de juro e flexibilizar as condições monetárias para suster a taxa de câmbio não é um caminho aconselhável, quando a confiança na moeda e na economia fraqueja, os investidores estrangeiros estão a retirar o dinheiro do país e os residentes estão a tentar fazer o mesmo. Não importa o quão justificável essa política pode ser noutras ocasiões, o resultado nestas circunstâncias é quase sempre uma maior fuga de capitais e um amontoar de perdas nas reservas.

 

A história mostra que, quando uma economia começa a falhar, os bancos centrais acham que é extremamente difícil de resistir aos apelos nacionais para agir. Isto é especialmente verdade quando a emergência de problemas bancários sistémicos obriga ao apoio de um credor de último recurso. No nosso trabalho académico, eu e Graciela Kaminsky, da Universidade de George Washington, demostrámos como os problemas do sector bancário frequentemente criaram as raízes do que viriam a ser desvalorizações cambiais acentuadas, devido à liberalização dos mercados financeiros e ao facto de se terem tornado globalmente integrados.

 

É claro que os controlos de capitais podem comprar algum tempo. O quanto dependerá da sua estrutura, do quão zelosamente são impostos e de outras medidas institucionais. A Tailândia introduziu controlos sobre a saída de capitais em 1997 e a China reforçou os seus controlos no início deste ano. No mesmo sentido, grandes reservas podem ajudar a adiar a crise por um tempo.

 

Mas comprar tempo não é a mesma coisa que inverter a tendência. De facto, as reservas do Banco Popular da China atingiram o pico em meados de 2014. Desde então, diminuíram em 20%.

 

De 2003 a 2012, muitos bancos centrais, incluindo o da China, acostumaram-se à gestão de grandes entradas de capital. A fim de evitar que as suas moedas valorizassem, compraram dólares (acumulando reservas em moeda estrangeira). Também compensaram os efeitos expansionistas da acumulação de reservas com o aumento das exigências de reservas impostas aos bancos comerciais. Como consequência desta política, a proporção de reservas em moeda estrangeira na China cresceu significativamente, tendo praticamente duplicado entre 2003 e 2008.

 

Desde 2008, no entanto, grande parte das políticas de estímulo chinesas, em resposta à crise financeira global, assumiram uma forma fortemente expansionista. Como resultado, o crescimento de moeda ultrapassou a acumulação de reservas durante o período de 2008 a 2014.

 

A expansão monetária persiste desde 2014, apesar de as reservas internacionais terem diminuído. Se olharmos para o rácio entre reservas e moeda, a reversão é ainda mais gritante do que sugerem os dados das reservas individualmente. De facto, o rácio caiu para níveis de 2003. Tendo em conta a percentagem da dívida de empresas chinesas denominada em dólares - embora reduzida face aos padrões internacionais, aumentou acentuadamente nos últimos anos -, o rácio entre as reservas e a moeda pode ser tão esclarecedor quanto os chamativos 3,2 biliões de dólares em reservas.

 

O compromisso da China em manter a taxa de câmbio constante parece ser incompatível com a recente adopção de políticas monetárias mais acomodatícias. Os esforços para congelar as saídas de capital acabam muitas vezes mal. Se o PBOC quer dar prioridade à estabilidade financeira e comprometer-se com o cumprimento do seu papel de credor de último recurso, então deverá ser preferível que aceite que a desvalorização é inevitável - antes que as reservas de moeda estrangeira se esgotem. A China deveria concluir que é aconselhável permitir, em breve, que o yuan seja negociado livremente, em vez de esperar que uma justificada crise de confiança force a sua decisão.

 

Carmen Reinhart é professora de Sistemas Financeiros Internacionais na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: André Tanque Jesus

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