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João Carlos Barradas 13 de Janeiro de 2010 às 11:53

Os receios pelo mundial da África do Sul

O ataque contra a selecção do Togo na floresta do Maiombe teve o efeito perverso de relançar a polémica sobre as condições de segurança em que terá lugar o Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul. As autoridades sul-africanas defendem-se...

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O ataque contra a selecção do Togo na floresta do Maiombe teve o efeito perverso de relançar a polémica sobre as condições de segurança em que terá lugar o Campeonato Mundial de Futebol na África do Sul.

As autoridades sul-africanas defendem-se, alegando não enfrentarem ameaças separatistas e fazem notar que o país nem sequer foi alvo até agora de atentados promovidos por redes terroristas internacionais, mas as dúvidas, sobretudo na Europa, sobre a segurança do primeiro Mundial de Futebol num país africano são vivazes.

Um ataque na pior altura
Cabinda é um caso muito especial no contexto angolano. O "Memorando para a Paz e Reconciliação" assinado em 2006 entre Luanda e a Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda - Renovada de António Bembe, deixou de fora facções dissidentes do movimento formado em 1963.

Desde então separatistas no norte do enclave raptaram um técnico chinês ao serviço da Sonangol em Novembro de 2009 e nos dois anos anteriores cinco pessoas morreram em ataques terroristas.

O enclave é uma área altamente militarizada contando-se 30 mil militares para cerca de 300 mil habitantes e dado que a exploração petrolífera se concentra em "off shores", produzindo 70 % do petróleo angolano, os esporádicos, mas persistentes, ataques terroristas não afectam a actividade económica.

Às históricas reivindicações separatistas sucedeu-se após o "boom" petrolífero a contestação sobre a partilha de recursos entre o governo central e a província, mas o conflito de baixa intensidade em Cabinda não põe em causa a integridade do estado angolano.

Um ataque a uma selecção participante num evento tão popular como o Campeonato Africano das Nações apenas contribui para o descrédito dos separatistas de Cabinda e obriga necessariamente os demais países do continente a expressarem a sua solidariedade com Luanda.

O embaraço do governo angolano, que arriscou colocar a cidade de Cabinda a par de Luanda, Benguela e Lubango como um local dotado de condições de segurança e infra-estruturas desportivas capazes de promover uma competição internacional, será compensado a prazo pela renovada solidariedade política que os países africanos terão de mostrar no combate aos separatistas.

Esperanças da África do Sul
Razão têm os sul-africanos em relembrar que o país já organizou grande competições internacionais como os campeonatos mundiais de cricket, em 2003, e de rugby, em 1995, que, por sinal, Nelson Mandela aproveitou inteligentemente para promover a reconciliação nacional através do apoio que manifestou aos "Springboks", que de selecção elitista e desprezada pelos negros, se tornou em símbolo maior da nação arco-íris, sagrando-se vencedora na final com a Nova Zelândia.

Esvanecidas tentações secessionistas dos zulus da província de Natal a África do Sul não enfrenta de facto quaisquer ameaças à sua integridade territorial.

A pobreza é, efectivamente, o problema maior do país e não será o Mundial de Futebol a trazer grande contributo para aliviar as desigualdades sociais.

Jacob Zuma ao tomar posse como presidente em Maio passado prometeu criar meio milhão de postos de trabalho até ao final de 2009, mas o ano foi-se com a taxa de desemprego de 23,2 por cento registada em 2008, a aumentar para 24,5 por cento.

Em 2009 a crise de que a África do Sul só começou a sair no último trimestre, com um crescimento de 0,9 por cento, destruiu um milhão de postos de trabalho e a recuperação será lenta e agravada pelo final das obras de construção civil relacionadas com o Mundial de Futebol ao acabar o primeiro semestre deste ano.

Gastos desmesurados em tempos difíceis
A construção de cinco estádios e a renovação de outros cinco recintos saiu cara: a conta vai presentemente em mais de seis mil milhões de euros e ocorreram os tradicionais gastos desmesurados.

Sinal emblemático de gastos alucinados provocados pela organização do Mundial é o estádio Mbombela para 43 .500 espectadores construído junto ao Parque Kruger no nordeste do país numa região particularmente pobre onde os 120 milhões de euros dispendidos bem podem espantar os habitantes dos bairros de lata vizinhos.

Na Cidade do Cabo o novo estádio onde Portugal jogará a 21 de Junho com a Coreia do Norte custou mais de 500 milhões de euros e verá depois do campeonato a sua capacidade reduzida de 69 mil para 55 mil espectadores. Mesmo assim a viabilidade económica da exploração do recinto é duvidosa e a complicar a situação o município viu-se sem dinheiro para completar um projectado sistema de autocarros rápidos que deveria servir os três milhões e meio de habitantes da metrópole.

O Mundial do país do arco-íris ficará inevitavelmente marcado por alguns crimes violentos, ou não registe a África do Sul mais de 18 mil assassínios por ano, ainda que a mobilização de cerca de 50 mil polícias para segurança das nove cidades onde se realizarão os jogos possa conter a violência do dia-a-dia.

A ameaça de ataques terroristas não será, no entanto, maior do que nos recentes mundiais da Coreia do Sul/Japão e Alemanha.

Infelizmente, para os mais de 15 milhões de sul-africanos que subsistem com menos de 2 dólares/dia o Mundial 2010 não trará alívio de maior e a sua selecção, a rapaziada ("Bafana, Bafana"), está longe do talento dos "Springboks".

Pese-se tudo isto e apesar dos dispêndios excessivos em tempo de crise o Mundial da África do Sul merece melhor imprensa do a que tem tido nos últimos dias.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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