Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 08 de fevereiro de 2016 às 00:01

Os riscos no crescimento de 2,1% do PIB

O ano de 2016 começou negativo para os mercados financeiros, devido a vários fatores que não são novos, mas que teimam em persistir.

Esses fatores são a desaceleração económica da China e suas ramificações à escala regional e global, a descida significativa dos preços das "commodities" (petróleo e não só), o aumento do risco geopolítico (atentados terroristas), os desequilíbrios entre a política monetária nos EUA e noutras zonas do globo, a instabilidade política em países como Espanha, que continua sem perspetivas de formação de governo, entre outros.

 

A situação é de tal forma preocupante que já obrigou o presidente do BCE a acenar com novos estímulos à economia, cuja eficácia deixa dúvidas, pois a Zona Euro continua com um crescimento económico reduzido e a viver uma situação perto da deflação.

 

A economia portuguesa, periférica e muito dependente do que se passa com os nossos parceiros comerciais, poderá enfrentar condicionalismos caso a envolvente internacional não melhore.

 

E aqui reside o aspeto fulcral de sucesso do Orçamento do Estado, principalmente no que respeita às previsões macroeconómicas.

 

Um crescimento do PIB que já foi revisto em baixa desde a campanha eleitoral, passando de 2,4% para 2,1%, mesmo assim levanta dúvidas de execução. Alguns analistas já vieram chamar a atenção para o otimismo do número. Nem em 2009, com um orçamento despesista, o país conseguiu crescer acima dos 2%.

 

O facto de as famílias terem um rendimento disponível maior, será que isso vai levar as pessoas a consumirem mais? Se virmos os indicadores coincidentes do Banco de Portugal divulgados em 22 de Janeiro, verificamos que nos últimos meses do ano o consumo desacelerou. 

 

Outra grande dúvida é o valor do défice público de 2,6% do PIB em 2016. Oxalá que sim mas, num orçamento em que a despesa aumenta e a receita não cresce como a despesa ou até pode diminuir, como é possível baixar o défice público? Seria, se a economia registasse um crescimento dinâmico, o que infelizmente não acontece se analisarmos as estatísticas.

 

Em 2015, o PIB deverá ter crescido 1,5% ou 1,6% e terminou o ano a decrescer face ao ritmo de crescimento dos trimestres anteriores. Teria sido melhor que o PIB continuasse a crescer mais trimestre após trimestre. A estimativa de crescimento de 2,1% no atual contexto de incerteza é de facto otimista.

 

Os indicadores de confiança nas principais economias do mundo estão a cair e em alguns casos já não se encontram na zona de expansão da atividade económica.

 

Caso a trajetória destes indicadores se mantenha nos próximos meses, vamos por certo ver o FMI, a OCDE e a Comissão Europeia continuar a descer as suas estimativas de crescimento para 2016.

 

Caso a economia não cresça como o previsto, tal terá implicações negativas na execução orçamental. Desde as eleições, a dívida pública portuguesa a dez anos já viu a "yield" subir cerca de 50 pontos base (0,5%) e o diferencial face aos títulos alemães com a mesma maturidade a subir dos 200 (2%) para os 250 pontos base (2,5%).

 

As análises de alguns bancos internacionais já não são tão positivas para a dívida portuguesa. Alguns recomendam vender ou pelo menos diminuir a exposição.

 

A execução orçamental do primeiro trimestre a ser conhecida em Abril vai ser crucial na perceção de risco por parte dos investidores. Se começarem a ser visíveis desvios negativos, o prémio de risco tenderá a aumentar. O ano de 2016 não vai ser fácil dadas as incertezas económicas atuais.

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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