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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 01 de Abril de 2010 às 12:07

Os trabalhos e as canseiras de Pedro Passos Coelho

Para muitos partidários do PSD, a vitória de Pedro Passos Coelho é absolutamente insuportável. Assisti a dois ou três fóruns de televisões, nos quais a ira dos intervenientes não era amenizada pelos 61 por cento dos votos obtidos pelo triunfador. Ele não...

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Para muitos partidários do PSD, a vitória de Pedro Passos Coelho é absolutamente insuportável.

Assisti a dois ou três fóruns de televisões, nos quais a ira dos intervenientes não era amenizada pelos 61 por cento dos votos obtidos pelo triunfador. Ele não representa o sentimento profundo dos militantes do PSD, dizia, levemente esganiçada, uma senhora de Miraflores. O objecto de simpatia da senhora era Paulo Rangel. Debalde o apresentador do programa insistia no facto mais do que evidente de que os psd's haviam escolhido, sem margem para dúvidas, Pedro Passos Coelho.

Desconheço as dores d'alma que o novo presidente do PSD causa nos espíritos, e a origem do desassossego. Mas a verdade é que Passos Coelho averba um número substancial de inimigos no rol das suas amizades. E que inimigos! Desde o dr. Cavaco, verrinoso em silêncio, até à dr.ª Manuela, que o escorraçou das listas de deputados, passando pelo prof. Marcelo, ao dr. Sarmento e ao apenas concebível Pacheco Pereira, o vencedor está destinado a passar um mau bocado.

Ninguém duvida de que o terreno que pisa está armadilhado. Não era agora (e, insisto, apesar da volumosa percentagem de votos para Pedro Passos Coelho) que o PSD iria alterar o sistema respiratório através do qual vai subsistindo. A génese do partido é a intriga, os malabares jogos de interesses, os verrines pessoais, a carência de ideologia e a convicção religiosa de que o poder é algo que foi feito para o PSD. O PSD torce-se, há anos, com intensas dores de barriga porque o PS de Sócrates sequestrou o lugar das suas definições e assaltou o poder servindo-se das bandeiras e dos valores que sempre haviam sido apanágio da Direita.

Mas nós vivemos num universo de faz-de-conta, de hipocrisias múltiplas e de manhas sem vergonha. Vi, nas televisões, claro, o rasgado sorriso da dr.ª Manuela, ao receber Passos Coelho para uma conversa desenfastiada. Em nome de que dignidade, reclamando-se de que decência é que esta gente apaga, de súbito, o mal que foi feito, as zangas que construíram, os desdéns que alimentaram? Seguidamente, acaso aconteça, Passos vai cair nos braços de Marcelo, apertar calorosamente a mão do dr. Sarmento, envolver-se num doce amplexo a Paulo Rangel?

Podemos acreditar na sinceridade desta gente, tendo em conta o que deles sabemos, das lutas fratricidas em que se meteram, nos remoques que soltaram uns e outros?

Pedro Passos Coelho escreveu e disse que vai "Mudar" tudo isto. Começa mal. Mas mesmo admitindo como sãs as suas intenções e recto o seu desígnio, Passos Coelho vai "mudar" quê e quem? O partido, já se sabe dessa impossibilidade; as pessoas, são irremovíveis; a doutrina do PSD?, mas que doutrina? Não duvido dos intentos do vencedor. Devo dizer aos Dilectos que, embora nada tenha a ver com a "social-democracia à portuguesa", não escondo certa simpatia por Passos Coelho. Ele nada vai modificar, nada vai alterar, nada vai melhorar à nossa vida: creio, até, que pelo contrário. E não tardará a que os poderes ocultos ou claros do PSD comecem a mover-se, nesse movimento lento, decidido e sinistro que tem cercado os líderes, enredando-os numa teia de enredos e insídias - e dado cabo deles com implacável antropofagia.

Que partido é este, cujas estruturas morais Pedro Passos Coelho parece conhecer bem? Na verdade, nem ele sabe o que é, na essência, um agrupamento de ressentidos, de rancorosos, mais semelhante a um obstinado grupo de faquistas do que a uma associação de homens de bem. Um saco de gatos ou de lacraus, como alguém já disse ou um mero jogo de facções dominadas por interesses económicos? E Passos dispõe de forças suficientes, pessoais e colectivas, para enfrentar a surda actividade contestatária que se adivinha, letal e gelatinosa?

Não será com paninhos de lã que Passos irá apaziguar ou, pelo menos, atenuar os ódios das facções. Mas também não será com enfrentamento e zanga. Fará sobrelevar a cortesia à irritação natural? Politicamente, muita boa gente já engoliu sapos de toda a ordem e elefantes de todo o tamanho. Mas, confessemo-lo, tudo isto fede e deixa um lastro de cansaço nas pessoas. Ortega ensinou que o homem é a sua circunstância. E que, perante dificuldades e adversidades, um homem é o que é quando não desiste, quando resiste, quando desafia, quando aceita todos os reptos. O dr. Jardim chamou a Pedro Passos Coelho "o rapazola". Pedro Passos Coelho vai ter inúmeras possibilidades de lhe provar o contrário.


b.bastos@netcabo.pt





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