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Manuel Pedroso Marques 25 de Maio de 2006 às 13:59

OTA e TGV na dimensão estratégica

Se a localização deve ser OTA e se o traçado da linha deve ser o que vier a ser apresentado já estamos no domínio da optimização operacional de dimensão estratégica pela sua importância e não pela sua natureza.

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A dúvida é o estado habitual do responsável realista por decisões estratégicas. Todavia, neste caso, as nossas certezas consistem na necessidade de um novo aeroporto para aumentar a capacidade (já esgotada, sazonalmente) do existente em Lisboa e duma ligação ferroviária à Europa idêntica e conexa à que vier a existir em Espanha. Constituem finalidades estratégicas pacíficas porque reduzem uma das maiores vulnerabilidades do país. Esta vulnerabilidade é indiscutível porque é física: a situação periférica. Se a localização deve ser OTA e se o traçado da linha deve ser o que vier a ser apresentado já estamos no domínio da optimização operacional de dimensão estratégica pela sua importância e não pela sua natureza.

Reduzirá também este constrangimento a construção de outras ligações, as rodoviárias e as marítimas. Mas todas estas opções - que se valorizam umas às outras, se interligadas – serão de efeito nulo se os aeroportos, os comboios, as portagens e as despesas portuárias não forem competitivas. Para quê desenvolver Leixões se os portugueses desembarcam mercadorias em Vigo porque é mais barato? E o mesmo de Sines, com vista às ligações à meseta ibérica, se Huelva entretanto espalhar os gaso-e-oleodutos? Aqui, regressa a estratégia no seu maior esplendor: tudo o que tiver importância estratégica tem uma relação polémica com o exterior, com os vizinhos, com a concorrência, com o mercado? ou seja, com os outros portos e aeroportos, nossos e dos outros países. Esta polemografia é um economicismo, indissociável da Estratégia, no mundo actual. Ninguém irá muito longe a esconjurar ‘os critérios economicistas», como hoje se ouve em «certa linguagem sindical» de baixo nível ideológico. Não se deve é ignorar os outros critérios.

Para o bem e para o mal, uma estratégia para um país inscreve-se, obviamente, na acção governativa que for desenvolvida. Se, às dúvidas metódicas, acrescentarmos um ambiente de desconfiança, provocado por quem não vê além da singularidade dos seus interesses pessoais, corporativos e regionais, recusando-se a apoiar e contribuir para os objectivos comunitários, corre-se o risco de ver instalado um quadro de paralisia estratégica.

O estado de letargia estratégica tem-nos invadido ao longo da História por duas razões principais: ou pelo comodismo de um género colectivo de vida facilitado por condições historicamente efémeras de que são exemplos o período colonial, o obscurantismo religioso e institucional (como aquela do primeiro-sargento que tinha de saber ler e escrever porque o capitão – sendo nobre! – não era a isso «obrigado»); ou pela incapacidade de definir objectivos nacionais e de os enunciar de uma forma mobilizadora.

A incapacidade estratégica tem muito a ver com a conflitualidade de interesses. O imobilismo pode resultar da existência desta conflitualidade se não houver um poder de arbitragem emanente de um relativo apoio político e institucional ao «incumbente» estratégico, neste caso, a quem toma as decisões. Pretende-se com isto significar que a crítica é prejudicial? De modo nenhum! A crítica é indissociável do discurso e da teoria. Todavia, como não existe uma teoria sobre a maneira de identificar objectivos para qualquer sistema, o que existe são teorias e uma vasta praxeologia sobre o emprego dos meios para os alcançar, podemos concluir que a Estratégia é uma disciplina de manifesto empirismo em relação aos fins e de procura da máxima racionalidade em relação à utilização de meios para os alcançar.

A evolução tecnológica do mundo faz caracterizar a dimensão dos equipamentos pela sua miniaturização e proliferação, aproximando-os de uma das duas fontes: ou da de alimentação ou da de escoamento e consumo. Assim, a construção da maior refinaria da Península Ibérica para transportar gasolina para um mercado consumidor a dez mil Kms. deve ser considerada um erro (independentemente dos outros aspectos). Um aeroporto fora da cidade é uma imposição operacional mas longe de mais já constitui um constrangimento estratégico (pelo ónus sobre a maior fonte de utilizadores).

Os estrategos, quando definem a estratégia escondem as dúvidas próprias, porque «as tropas», como a cidadania têm de ser e estar mobilizadas. Logo, uma estratégia tem de ser credível. Mas a diferença entre a credibilidade e a validade vai para outra croniqueta.

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