Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 09 de março de 2016 às 20:35

Outra vez o fantasma da deflação

Já em 2014 abordei este tema e os riscos que uma situação de deflação incorpora para a dinâmica económica que se deseja na Zona Euro. O indicador de inflação de fevereiro voltou para terreno negativo.

A descida do preço do petróleo e a desaceleração do crescimento económico na Europa nos últimos meses, evidenciado pelo comportamento de diversos indicadores económicos, foram os principais fatores deste comportamento.

 

As expetativas dos agentes económicos têm vindo a regredir nos últimos meses. Prova disso é a evolução do PMI (Purchasing Managers Index) do setor industrial, um dos indicadores económicos de referência. Acima dos 50 pontos, o PMI indica expansão económica e abaixo dos 50 pontos indica sinais de fraqueza.

 

Na Zona Euro, o PMI da indústria caiu de 53,2 em dezembro de 2015 para 51,2 em fevereiro de 2016, sendo este valor o mais baixo desde fevereiro de 2015.

 

Mesmo a Alemanha, o motor económico da Europa, registou em fevereiro um PMI industrial de 50,5 (53,2 em dezembro de 2015), o valor mais baixo desde dezembro de 2014.

 

Em fevereiro, o PMI industrial mais elevado na Zona Euro pertencia a Espanha, 54,1 pontos (caindo de 55,4 em janeiro mas acima dos 53 de dezembro de 2015).

 

Mas não é só a Zona Euro a registar menos dinamismo económico. O PMI da indústria no Reino Unido está nos 50,8 (55,5 em outubro de 2015), nos EUA encontra-se em 51,3 (54 em outubro de 2015) e na China está em 49 (nos últimos 12 meses tem variado entre os 48,2 e os 50 pontos).

 

Nos restantes países BRIC, Brasil, Rússia e Índia, o PMI industrial estava em fevereiro nos 44,5, 49,3 e 51,1 respetivamente.

 

A tendência de redução de expetativas de crescimento económico mundial é evidente pelos indicadores económicos que têm sido divulgados nos últimos meses e pelas revisões em baixa do crescimento económico do FMI, OCDE e Comissão Europeia.

 

Logicamente que a evolução do preço das "commodities" é um dos fatores para as menores expetativas de crescimento. Os desequilíbrios da política monetária entre, por exemplo, os EUA, a Europa e os mercados emergentes geram igualmente volatilidade cambial e dos mercados financeiros e tal é negativo para a confiança.

 

E Portugal, onde fica neste enquadramento? Portugal é uma economia que depende do consumo privado, das exportações e do investimento. No mês de janeiro o crescimento das vendas a retalho foi o mais vigoroso da Zona Euro, mas em termos homólogos cresceu apenas 1,2% (janeiro de 2016 versus janeiro de 2015).

 

As exportações cresceram 3,6% em 2015, mas sobretudo graças às exportações para os nossos parceiros na UE. Para fora da UE, houve problemas, pois alguns mercados enfrentam crises económicas, como os casos de Angola e do Brasil.

 

No que respeita ao investimento existem mais dificuldades. Se no setor imobiliário o momento é bom, com as vendas de imóveis em 2015 a baterem recordes, já nos restantes setores a situação fica bastante aquém do desejável e do ritmo que a economia portuguesa necessita.

 

Apesar de vivermos um ambiente de taxas de juro reduzidas, a situação económica do país, as dificuldades que subsistem, a ausência de projetos do setor privado, o facto de o Estado continuar limitado em matéria de investimento, as dificuldades que o setor bancário atravessa, a manutenção do crédito malparado em níveis elevados e acima de tudo a incerteza interpretada pelos investidores internacionais acerca da evolução económica de Portugal são fatores que vão continuar a condicionar o nível de investimento. Sem investimento, não há criação de emprego, sem este o consumo é afetado e por consequência, a deflação continuará a ser uma variável muito preocupante.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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