Rui Patrício
Rui Patrício 05 de março de 2018 às 20:47

Ovídio e um "tweet" pós-coital

Ovídio escreveu (em "Ars Amatoria") que os animais ficam tristes depois do coito. Ele lá saberia, mas a verdade é que o Zé, certo dia, depois do prazer, não entristeceu, antes deu por si num remanso de carne e espírito.

E, em vez do cigarrinho cliché, agarrou-se ao telemóvel e entrou na rede social SAB (Sempre a Abrir) - uma novidade que dava que falar e animava gregos e troianos. Ai, se tivessem inventado as redes sociais há mais tempo, certamente Baudelaire teria derrotado o "spleen" parisiense, Hemingway teria postado uma selfie em vez de meter uma bala na cabeça e Virginia Woolf apenas teria mergulhado num rio virtual. E por aí fora, mas voltemos ao Zé, que deixámos, há uma frase atrás, de dedo em riste em direção ao ecrã do aparelho. Mas não sem antes explicar que estas referências literárias não são pretensiosismo narrativo, só servem para ilustrar o perfil da nossa personagem, cujo amor pelos livros apenas rivalizava com a sua paixão pelo futebol. Em matéria de bola, ele apreciava quase tudo, já quanto a livros preferia os clássicos, embora embirasse com Ovídio.

 

Pois bem, naquele dia o Zé achou que era a ocasião certa para mostrar erudição e, ao mesmo tempo, dar uma canelada em Ovídio, com um tweet que lhe pareceu de refinada ironia cultural e de elegante alegria erótica. E escreveu no seu perfil na tal rede: "Quero aqui prestar a minha última homenagem a Ovídio." E logo adormeceu, com a carne quieta e a alma lavada, para desfrutar do sono dos justos. Mas a coisa logo estoirou na tal rede e contaminou as outras, e depois os blogues, e a seguir chegou aos jornais, às televisões e às rádios - aliás, quando se trata de beber nas redes sociais, a corrente escorre veloz, precipitada e superficial. Mais a mais, tratando-se do Zé, que tinha muito seguidores e admiradores. E ainda por cima num fim de dia tedioso, em que nada acontecera, e com tanta gente navegando nas redes e as redações à procura de encher o cantil.

 

A sua última homenagem a Ovídio soou aos ouvidos dos literatos como obituário de um escritor, e aos cultores do futebol pareceu anúncio de morte de um jogador. Só podia ser, claro: "Presto a minha última homenagem" não é frase de morte, ainda por cima escrita por um conhecido amante de literatura e de futebol? Agitação, preocupação, correria. Ovídio morrera, e não havia nada preparado para a página literária?! E como destacar nos desportivos o falecimento dessa promessa, Ovídio, seguramente um pés de seda?! E nos programas da manhã, quem explicaria, quem daria opinião, quem estaria em linha com o que fervia nas redes?! Googlavam e não aparecia nada de jeito, pensavam e não ocorria ninguém para falar, e logo sobre alguém que certamente era importante ou promissor, pois se não fosse o Zé não teria postado e as redes não estariam em ebulição.

 

Desorientação, urgência, frenesim. Só havia uma solução, e quem a alcançasse ficaria na frente: conseguir ter o Zé em direto. Um sortudo conseguiu acordá-lo e pediu a um Zé ensonado, do outro lado da linha, que viesse ao jornal da manhã ser entrevistado sobre a morte do importante Ovídio. Como, quem? - perguntou a nossa personagem. Então, Professor Zé, o escritor ou o futebolista que morreu e o senhor ontem homenageou na SAB - disse o outro, respeitoso. Oh homem - barafustou o Zé -, deixe-me dormir, não morreu ninguém, Públio Ovídio Naso foi um poeta romano que se finou há séculos, não jogava à bola e parece que, ao contrário de mim, os prazeres da carne o punham triste. LOL. Like.

 

Advogado

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico