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Fernando Braga de Matos 12 de Março de 2010 às 11:41

Pagadores de promessas e vendedores de quimeras

(Onde o autor, após uma vista de olhos ao Pacto de Estabilidade e Crescimento, sobre o qual se mantinha em vigília e alta ansiedade, conclui, através de fiáveis indicadores, que o dito produto parece OK na zona "estabilidade" e a inevitável droga (aliás, assumida) na secção "crescimento", merecendo claramente um necessário e patriótico consenso alargado dos partidos com os pés assentes na terra).

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Finalmente, a dupla Sócrates-T.Santos caiu na real (1) e até imagino uma reunião no Ministério da Verdade e das Finanças em que o segundo poderá ter dito ao primeiro: "Aquela banha da cobra do orçamento e as fitas demissionárias não pegaram, isto agora já não é pechisbeque para o eleitorado, mas substância para os credores e para a Alemanha." Sócrates poderá até ter respondido qualquer coisa como isto: "Vai em frente! Mas faz de modo a eu poder dizer que não aumento os impostos, mesmo que suba a carga fiscal, porque muita gente não nota e, seja como for, está-me na massa do sangue meter umas petas."

Concluí, então, o que disse em epígrafe, porque nestas coisas há indicadores fiáveis, que estou habituado a usar até por deformação bolsista, passando a enunciá-los: mercado da dívida soberana, "spread" dos CDS, "WSJ", "FT", agências de "rating" e organizações internacionais, EuronextLx, CGTP/PCP, beato Louçã. Tudo isto é ainda muito preliminar, mas trata-se de um começo razoavelmente fiável.

Passando a pente relativamente fino: Terça-feira lá foram colocados com grande sucesso 990 milhões de euros de dívida pública portuguesa, o que deixou deslumbrada e aliviada a nossa autoridade de crédito público; melhoraram as taxas dos CDS; o "Wall Street Jounal" deu bom realce ao êxito do leilão de obrigações, o "Financial Times" pôs a voz aprovadora do correspondente em Portugal; a OCDE mostrou anuência benévola; a Fitch rezingou com a demora da consolidação, mas vai mantendo o duplo A do "rating"; a bolsa portuguesa subiu 1% no segundo dia do anúncio; a CGTP, pela voz de Carvalho da Silva, já "engrevidou"; e Louçã, pelo seu lado, lançou os habituais raios e coriscos. Quer dizer: bons sinais que dão para ir à oral, com nota promissora.

Claro que há uns idiotas ameaços de cortes aos gestores não financeiros, o que é mais uma forma de penalizar a nata e fomentar a emigração de qualidade, bem como uma penalização na tributação das mais-valias, o que por sua vez tem por efeito a fuga de capitais, sendo que ambas as receitas pouco relevo proporcionam no bolo final. Mas são medidas políticas necessárias no domínio psicológico (há quem apele ao plano moralizador, mas não me parece nada assim, nem percebo o fundamento) e passam bem no contexto. Importante neste domínio seria, sim, a diminuição dos salários dos políticos, segundo o princípio mobilizador, "o exemplo vem de cima".

Seja como for, coagida ou não, iluminada ou não por uma força superior, nota-se uma inédita formulação de seriedade de origem governamental.

Mas falta muita coisa, nomeadamente no domínio do crescimento, e sabe-se bem como as medidas de início de austeridade tem efeitos contractivos. Mas neste ponto é que é de dar uma volta estratégica quanto ao modelo(2), para não falar da verdadeira consolidação duma despesa primária finalmente racionalizada e desbastada(3). E nem menciono a imprescindível revisão constitucional.

O PEC, para já, é apenas um papel de intenções. Prometer é fácil, e nisto este primeiro-ministro é "le crême de la crême". Cumprir é outra coisa, quando, além do mais, se dá como chamariz a disciplina monástica.

Mas às vezes de coisa pouca nascem raízes para rumos que mudam e esperanças que nascem.


(1) Outra versão sustenta que Sócrates foi ver o "Alice no País das Maravilhas" e ficou muito mal impressionado com o destino da Rainha de Copas, mesmo sendo o filme muito mais Disney que Burton.
(2) É assim que se diz, porque, a mim, até me parece excepcionalmente pouco modelar.
(3) O acordo com o sindicato dos professores, ou melhor, a rendição incondicional do Governo, custando cerca de 500 milhões anualmente aos contribuintes, é um sinal prévio completamente desmoralizante, além de oneroso. Parece que já nada vale a pena.

Advogado, autor de "Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença). fbmatos1943@gmail.com
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