Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 11 de abril de 2017 às 20:43

Para português ver

A Europa dos últimos cem anos tem uma história de líderes impressionantes. Não são só os criminosos responsáveis por quase terem destruído o continente, que tinham a sua imponência (ainda que uma imponência sinistra).

Não são só, também, os que fizeram a guerra que nos salvou dessa destruição. Muitos dos que depois construíram a paz eram figuras maiores do que a vida, entre as quais havia um tipo de respeito mútuo que não existe mais - um misto de temor e reverência, desconfiança e admiração, tão bem descrita na definição luxuriosa que François Mitterand fazia de Margaret Thatcher, sua némesis: "Olhos como os de Calígula, lábios como os de Marilyn Monroe."

 

A geração actual tem o privilégio da paz duradoura, mas em contrapartida tem de viver com líderes menos arrebatadores (um preço que se paga alegremente).

 

Apesar disso, foi um certo entusiasmo patriótico que me levou a procurar na internet o "confronto", antes de uma reunião do Eurogrupo, entre o presidente do dito, Jeroen Dijsselbloem, e o secretário de Estado Mourinho Félix.

 

O início do filme não é auspicioso, com Mourinho Félix desconfortavelmente expectante, enquanto a sua vítima faz conversa de circunstância com outros presentes e a câmara de televisão, como que cumprindo um aviso prévio, se coloca em posição de registar para a posteridade o corajoso ataque do nosso enviado especial.

 

Quando a presa finalmente se aproxima, sai um cerimonioso mas bem ensaiado "quero dizer-lhe que foi profundamente chocante aquilo que disse sobre os países que estiveram sob resgate e gostaríamos que pedisse desculpa perante os ministros e a imprensa". Dijsselbloem liberta-se com facilidade do cerco: "Vou dizer algo sobre isso, mas a reacção de Portugal também foi chocante. Não vou exigir-lhe um pedido de desculpas, mas vou dizer algo sobre o assunto."

 

Perante a falta de penitência do ministro holandês, achamos que o secretário de Estado vai elevar o tom. No entanto, este limita-se a uma palmadinha no braço do colega e a um atordoado e reticente "bom...". Talvez este pudor seja o máximo que podemos esperar das controvérsias entre burocratas inofensivos.

 

Se o diálogo, por si só, já foi pouco impressivo, menos ainda o foi tudo o que depois se passou. Ou, melhor, tudo o que depois não se passou. Pelos vistos, não só as explicações de Dijsselbloem no início da reunião permaneceram incontestadas por Mourinho Félix como, ao contrário do anunciado, Portugal não pediu oficialmente a demissão do presidente do Eurogrupo. Nem Portugal nem nenhum outro país do Sul da Europa. O próprio Dijsselbloem manifestou a sua surpresa a um jornal holandês, na última segunda-feira, o mesmo dia em que os líderes dos países do Sul se reuniram em Madrid, numa cimeira em que não consta que sequer tenham abordado o tema.

 

O que significa que a incumbência com que verdadeiramente Mourinho Félix esteve na reunião do Eurogrupo não foi a da reposição da dignidade da pátria, mas a de uma simples e inconsequente encenação para consumo interno.

 

Quanto mais rigoroso o Governo tenta ser no cumprimento das imposições da "ortodoxia" de Bruxelas (na política orçamental, na gestão do sector bancário) mais tem de continuar a insistir na propaganda contrária de que é uma força heterodoxa no quadro da União.

 

É para manter a ilusão de que desafia com voz grossa o poder dos mais fortes que António Costa necessita de encenações caricatas como a que mandou Mourinho Félix fazer. Outras se seguirão.

 

Advogado

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