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Adolfo Mesquita Nunes 23 de Abril de 2018 às 20:02

Para vencer António Costa há que combatê-lo, não propriamente juntar-se a ele 

Sabendo que não pode ganhar eleições sem o centro, e que uma excessiva aproximação a comunistas e trotskistas pode comprometer esse objetivo, o PS iniciou o seu processo de recentramento. 

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O processo começou, como escrevi, com a eleição de Centeno para o Eurogrupo. Durante dois anos, Centeno jurou que não estava a fazer o que estava a fazer, como quem não quer provocar o Bloco e o PCP: não havia cortes, nem cativações, nem quebras no investimento. Nas últimas semanas, porém, o discurso é o de quem não quer provocar o centro: cuidado com a despesa, isto está ainda instável, não deitemos tudo a perder. Centeno é o mesmo, mas o discurso é diferente.

 

Esse recentramento teria poucas possibilidades de sucesso se dependesse apenas dessas declarações. Tornou-se por isso essencial ir buscar legitimidade ao outro lado político, ao PSD. Foi só por isso que António Costa, magnânimo, se decidiu, pela primeira vez desde que é Governo, e marcando o ritmo e a iniciativa, a fazer um acordo com o PSD. E fê-lo com pompa, holofotes, para que ficasse evidente o seu regresso ao centro, algo que nenhuma votação parlamentar asseguraria. 

 

Mas não é bom que o PS se recentre, se descole do imobilismo imposto pelos seus parceiros? Seria bom se o recentramento fosse real e não mera forma de ganhar votos. Ninguém obrigou o PS a formar maioria com a extrema-esquerda parlamentar, pelo que os socialistas não estão sequestrados, a pedir ajuda. Foram também vários, e claros, os sinais dados pelos socialistas de que estavam melhor com Bloco e PCP do que com PSD e CDS, pelo que os socialistas estão confortáveis com os seus aliados. Este recentramento não passa de oportunismo e evaporar-se-á a seguir às eleições.

 

Mas não é bom que os partidos cheguem a acordos em nome do interesse nacional? Seria bom se o interesse nacional fosse sempre tido em conta e não apenas quando este se confunde com o interesse do PS. Onde estava o interesse nacional quando o PS rasgou o acordo de redução do IRC ou quando o PS votou contra e sem diálogo todas as propostas de reforma apresentadas pela oposição, mesmo as mais consensuais? Este acordo não é assinado porque respeita o interesse nacional, é assinado porque respeita o interesse do PS. 

 

Mas não é bom reduzir o grau de influência de PCP e Bloco na governação? Seria bom se este recentramento retirasse espaço a comunistas e trotskistas. Mas é o oposto: estes partidos estavam a perder espaço e recuperaram-no desnecessariamente com o PS ao centro. PCP e Bloco voltaram a ganhar discurso eleitoral à conta deste acordo. 

 

Convenhamos, este recentramento, legitimado pelo PSD, cumpre a antiga ambição socialista de transformar o PS na única alternativa a si próprio: umas vezes com a esquerda, outras com a direita, mas sempre o PS ao leme, no Governo. Só há acordos quando o PS quer, só há reformas quando o PS quer, só há governo quando o PS está, transformando os outros partidos em meros figurantes, auxiliares. Não, obrigado.  

 

A única forma de reduzir a influência da extrema-esquerda parlamentar, a única forma de recentrar o PS, a única forma de superar o imobilismo desta governação, não passa por figurar em acordos oportunistas, passa por apresentar um projeto alternativo, concorrencial, claro, positivo, ao projeto de esquerdas liderado por António Costa. Passa por colocar em confronto duas visões sobre o futuro. Não há mal nenhum nisto, é aliás essencial a uma democracia de qualidade, a concorrência de projetos que se sindicam mutuamente e que obrigam ao debate e a cedências mútuas, de igual para igual e não ao sabor dos ritmos e desejos e iniciativa de um deles. 

 

Para vencer António Costa há que combatê-lo, não propriamente juntar-se a ele.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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