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José Diogo Madeira jdmadeira@netcabo.pt 15 de Junho de 2005 às 13:59

Para acabar de vez com os arrastões

Com que lata se pede tolerância, quando deixamos de ir à praia com medo de arrastões e quando os nossos polícias são abatidos à queima roupa? O povo reage mal a estes estímulos bem intencionados, quando lhe estão a entrar pelo quintal para roubarem as gal

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O arrastão de Carcavelos trouxe-nos, de novo, a questão dos «gangs». Já em Fevereiro, o assassínio, à queima-roupa, de um polícia na Damaia evidenciava a urgência do que se está a passar. E o problema tem uma importância de primeira ordem, porque esta criminalidade selvagem e terceiro-mundista – no sentido de que é inspirado no que de «melhor» se faz no Brasil – está a agravar-se e a tornar-se cada vez mais agressiva. Se nada for feito para a travar rapidamente, ainda assistiremos a uma onda de raptos de personalidades do mundo empresarial, também à boa moda de São Paulo. E não é muito agradável imaginar uma cidade de Lisboa onde já não se pode ir à praia e onde tem de se viver em condomínios rodeados de arame farpado.

Mesmo contornando estes alarmismos, é preciso entender três coisas distintas. Os cidadãos têm direito à sua segurança e é o Estado que a deve garantir. A criminalidade prejudica a economia, especialmente num País que tem no turismo a sua riqueza natural e é o Governo que tem de a combater. E a insegurança e a criminalidade, associadas ao crescimento do desemprego, favorecem o surgimento de partidos da extrema-direita. E são os cidadãos que têm de se empenhar para que estes casos de assalto e homicídio não degenerem em argumentário xenófobo primário.

Face a isto, é preciso pensar numa política de luta total contra o crime e uma política de integração social, cultural e laboral da segunda geração de imigrantes, especialmente os africanos. E não tomem isto por racismo – é apenas o reconhecimento factual de que os casos de que falamos têm origem junto de «gangs» compostos por miúdos que compõem a segunda geração de imigrantes africanos em Portugal. Ora, estes miúdos vivem em bairros separados da realidade portuguesa, no sentido em que vivem em zonas excluídas do que entendemos por Portugal – expressam-se numa língua diferente, têm costumes diferentes, «leis» diferentes e provavelmente desconhecem também a cultura da «maioria» que vive ao seu lado. Autênticas favelas, que constituem um universo paralelo ao «nosso» universo. Uma vez que é aqui que nascem e crescem estes «gangs», é aqui que é preciso intervir. Enquanto as Covas da Moura perdurarem, perdurarão os «gangs». Com a agravante de que estão a crescer nas suas «competências». E, para que isto seja reversível, as políticas de integração têm se ser radicalmente revistas – além de serem desconhecidas do grande público, andam à volta do tema de dar a conhecer as culturas dos povos que agora convivem quotidianamente connosco. Convido-vos a olharem para o «site» do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (www.acime.gov.pt) para detalharem melhor esta matéria. Os senhores serão esforçados, mas o problema de fundo não se resolve com campanhas apelando para a tolerância. Até porque, com que lata se pede tolerância, quando deixamos de ir à praia com medo de arrastões e quando os nossos polícias são abatidos à queima roupa? O povo reage mal a estes estímulos bem intencionados, quando lhe estão a entrar pelo quintal para roubarem as galinhas. Não sejamos hipócritas, as coisas são o que são e, quando se tratar de proteger vidas humanas e as coisas que nos pertencem, o lirismo não é uma boa solução. A imigração é um factor importante para a dinamização económica, social e cultural de Portugal, que deve ser bem tratada e apoiada. Mas convém não confundir o apoio à integração dos imigrantes com frouxidão para com estes problemas de insegurança por que começamos a passar.

O que é mesmo preciso é uma tomada de posição política clara sobre a matéria, que resulte numa intervenção de fundo que junte os esforços estatais aos das autarquias onde se localizam estes pontos críticos e se desenvolva um plano multidisciplinar, com técnicos de integração social, urbanistas, demógrafos e economistas. E enquanto se criam as condições de longo prazo para acabar com os guetos, a polícia tem de ser preparada e equipada para estancar de imediato as manifestações de violência e de criminalidade que se têm verificado. Mas é preciso que estas duas coisas sejam feitas de imediato, porque ficar mais tempo com conversas moles sobre esta matéria só vai permitir que os «gangs» se profissionalizem e da próxima vez que atacarem, o façam com mais força e violência. Não há ninguém no Governo que esteja a ver isto?

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