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Manuel Falcão 08 de Maio de 2020 às 11:03

Paradoxos do poder

Ainda durante o estado de emergência, o Presidente da República e o primeiro-ministro resolveram deixar a abordagem científica do combate à pandemia

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"A felicidade é essencialmente a combinação de ter boa saúde e má memória."
Albert Schweitzer

Paradoxos do poder
Ainda durante o estado de emergência, o Presidente da República e o primeiro-ministro resolveram deixar a abordagem científica do combate à pandemia, trocando-a pela abordagem política às boas relações com o PCP e pela conquista de boas vontades para os próximos orçamentos e atos eleitorais. A coisa consubstanciou-se em torno das evocações do Primeiro de Maio, com a coreografia montada pela CGTP que, de mãos dadas com os comunistas, bem pressionou as duas figuras acima referidas para terem direito à excepção das medidas preventivas. A pressão foi protagonizada pela nova líder da CGTP, Isabel Camarinha, uma sindicalista vinda do sector dos serviços e que se mostra adepta da linha dura de confronto. É curioso notar que, de acordo com os últimos números conhecidos no meio da nuvem de mistério que habitualmente rodeia as estatísticas sobre sindicalizados, a CGTP representará cerca de 550 mil trabalhadores e a UGT uns 480 mil - quase empatadas, portanto.

No seu recente congresso, a CGTP anunciou novos inscritos, mas evitou dar números de abandonos e total de filiados. É também interessante notar que a Administração Pública, sector de escritórios e serviços, professores e saúde são as áreas que contribuem com maior número de sindicalizados da CGTP - e a dosagem da paz social nestes sectores é a moeda de troca nestas negociações. Para termos uma ideia de conjunto, um estudo recente refere que, nas últimas quatro décadas, o número de sindicalizados caiu de 60,8% para 15,7% da força de trabalho. E, sendo o total de sindicalizados nas duas maiores centrais pouco superior a um milhão, convém recordar que a população activa, nas estatísticas mais recentes, é de cerca de 5,2 milhões. Traduzindo por miúdos: já que UGT se demarcou dos festejos da CGTP, a realidade é que, em nome dos 10% da população activa, Isabel Camarinha e Jerónimo de Sousa conseguiram levar Presidência e Governo a permitir uma violação às medidas de contenção da pandemia. E agora a líder sindical queixa-se, face às reacções que surgiram, de estar a ser perseguida. Isto não é o mundo ao contrário?

Semanada

No prazo anunciado pelo Governo para o pagamento das primeiras comparticipações ao lay-off, muitas empresas ainda não receberam um cêntimo do Estado e multiplicam-se as denúncias sobre a dificuldade em obter respostas da Segurança Social • Bruxelas continua sem data para anunciar plano de recuperação económica  os profissionais do sector da cultura contam perder mais de 50% do seu rendimento o Banco de Portugal estima em 8,2% a perda de rendimento das famílias portuguesas em relação ao mesmo mês do ano passado, caiu para metade o número de vacinas administradas em Abril na Europa já foram detectados 6000 casos de sarampo por falta de vacinação  a PSP e a GNR receberam 4111 queixas desde o início do ano por golpes com MB Way as empresas de media ouvidas pelo Presidente da República disseram que os apoios estatais são bem-vindos, mas sublinharam que os anunciados até agora são insuficientes um estudo de cinco universidades portuguesas mostra que 45% das pessoas que eram fisicamente inactivas antes da pandemia iniciaram a prática de alguma actividade física durante o período de confinamento segundo uma sondagem recente da Marktest, 14% dos jovens portugueses não consomem nenhuma peça de fruta por dia as receitas dos casinos virtuais subiram 58% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

Dixit
"O mesmo Governo que acede a festejos do Dia do Trabalhador acumula atrasos nos pagamentos das situações de lay-off, que deixam dezenas de milhares na penúria."
Paulo Rangel

Conselhos para a crise
Uma das publicações especiais do grupo Monocle é a revista Entrepreneurs, derivado nascido de uma rubrica da rádio online Monocle24. A edição agora lançada é dedicada a formas de repensar, ajustar e defender os negócios dos pequenos e médios empresários no contexto da crise gerada pela pandemia. A capa, aqui reproduzida, evoca um canivete suíço e a sua multiplicidade de ferramentas para resolver problemas - e é isto que a revista propõe, através de um conjunto de ideias, reportagens e artigos de opinião. Esta Entrepreneurs dá especial enfoque a alguns empreendedores que estão a recuperar marcas tradicionais, adquirindo a posição de antigos proprietários. Além disso, são mostrados casos de sucesso, sugestões de sectores que podem ser boas possibilidades de investimento. Conselhos de comunicação, externa e interna, e de trabalho em equipa estão também presentes. Pequenos negócios em localizações inesperadas e empresas que apostam na tecnologia estão entre os numerosos casos referidos ao longo da edição. As últimas páginas são dedicadas a lições que devem ser retidas desta crise - 25 ideias fortes, que vão desde as vantagens de ter uma empresa ágil até à importância do comércio local na defesa da qualidade de vida nas cidades, passando pela mais-valia dos contactos cara a cara ou da defesa da privacidade. E o jogo sugerido como bom exercício para resolver problemas, qual é? O xadrez, claro. Vai uma partida?

Arte digital
"maat Mode" é uma iniciativa do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), que propõe uma programação semanal divulgada através do seu site, do Instagram e do YouTube. "Prova de Artista" é uma rubrica publicada no Instagram do museu, em que todas as segundas-feiras, durante o "maat Mode", é apresentado um artista, representado na Coleção de Arte Portuguesa Fundação EDP, para dar aos seguidores a oportunidade de conhecerem melhor as suas ferramentas favoritas, as suas inspirações ou seguirem até a recomendação de um livro. José Barrias foi o primeiro convidado. Confessa que o lápis é a sua ferramenta de trabalho preferida, fala dos dois livros em que está a trabalhar e a obra que sugere é "Salto di scala", de Ruggero Pierantoni. Na rubrica "Património Energético", está uma exposição virtual de cartazes e folhetos sobre o papel da mulher na publicidade aos electrodomésticos nos anos de 1930 a 1950. A programação completa pode ser seguida, por exemplo, no Instagram na zona onde está a imagem aqui reproduzida - ideias para todos os dias, de segunda a domingo.

A salvação através da massa
Uma das receitas garantidas para a junção de um cozinhado rápido com uma refeição saborosa consiste na combinação de massa com legumes. A primeira questão é escolher o formato da massa, entre as várias marcas de boa qualidade no mercado. Normalmente, oscilo entre fusilli ou farfalle (espirais ou lacinhos). Estes são os dois formatos que, penso eu, captam melhor o sabor do cozinhado. Há várias possibilidades de legumes - as minhas duas opções favoritas são curgetes e beringelas aos cubos, com tomate-cereja cortado ao meio, e, noutro plano, farfalle com flor de brócolo (à qual gosto de juntar dois ou três filetes de anchova de conserva esmagados). Recomendo que salteiem os legumes com um pouco de azeite. Geralmente, começo por colocar três ou quatro lâminas de gengibre fresco a aquecer com o azeite e depois lanço os legumes, que tempero com sal a gosto, pimenta-negra moída na altura, gengibre em pó e cebolinho fresco picado. Enquanto os legumes estão a ser preparados, deito a massa escolhida em água abundante já a ferver, temperada com sal, e deixo-a cozer até dois a três minutos antes do tempo recomendado. Quase no fim, retiro o equivalente a um copo da água da cozedura da massa, que reservo. Escorrida a massa, coloco-a directamente com os legumes, mexo tudo bem, e vou adicionando a água da cozedura aos poucos para permitir uma melhor ligação - e, por vezes, deito também mais um fio de azeite. No caso do farfalle com brócolos, prefiro usar os broccolini, os pequenos brócolos, usando apenas as flores e retirando quase todo o caule. Se for o caso, antes de juntar os farfalle mal cozidos, ponho as anchovas esmagadas, envolvo bem nos broccolini e depois adiciono a massa misturando tudo bem. O segredo é deixar a massa envolver-se no sabor daquilo com que é misturada.

Arco da velha
Um empresário espanhol colocou uma placa com a inscrição "zona de quarentena covid-19" para evitar que as pessoas de uma aldeia alentejana circulassem por um caminho municipal que atravessa uma propriedade de que é arrendatário.

Britpop
Ed O’Brien, um dos guitarristas dos Radiohead, lançou o seu primeiro álbum a solo, "Earth". Muito menos conhecido do que outros membros da banda, como Jonny Greenwood ou Thom Yorke, O’Brien optou, nesta sua estreia, por recuperar algumas das sonoridades que tornaram os Radiohead conhecidos na segunda metade dos anos 1980. Ao contrário das experiências de outros elementos do grupo, nomeadamente Yorke, Ed O’Brien, EOB para os fãs, mantém-se fiel às origens e é em torno da sua guitarra que desenvolve o disco - embora o uso da electrónica seja abundante. Há, se quisermos, duas faixas de referência desta sonoridade, "Brasil" e "Olympic", ambas a excederem os oito minutos de duração, mais ambientais, calmas, com mais sintetizadores. Depois há faixas mais cruas, como "Deep Days", em que proclama: "We are the people on the edge of the night." "Long Time Coming", com a guitarra acústica em destaque, é outra das canções a merecer atenção. Talvez o ponto alto seja a faixa de encerramento, "Cloak On The Night", na qual a guitarra se junta à voz de Laura Marling. Esta estreia a solo de EOB é, no fundo, um disco eclético, que oscila entre o regresso ao britpop - que fez os Radiohead célebres - e momentos confessionais do autor, aqui acompanhado por um elenco de luxo: a produção é de Flood e, nas diversas faixas, participam Adrian Utley, dos Portishead, Glenn Kotche, dos Wilco, e, como acima se referiu, Laura Marling. É tão eclético e fora do seu tempo que acaba por ser engraçado. "Earth" está disponível no Spotify.


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