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Parece que não se pode falar de Angola porque vivem lá portugueses

Já perdemos a conta à quantidade de vezes que alguém defende o silêncio, a cabeça baixa ou a defesa incondicional do regime de Angola invocando um argumento: é preciso não prejudicar os interesses dos portugueses e das empresas que escolheram aquele país para trabalhar.

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Paulo Portas, assumindo a sua confessada faceta de Oliveira da Figueira, invocou há dias esse mesmo argumento: é preciso criar uma boa relação com Angola para "proteger os 100 mil portugueses, as duas mil empresas", etc. etc. É um mau argumento.

 

Na relação intensa entre Portugal e Angola há dependências mútuas. Em Luanda, a elite depende muito de quadros portugueses qualificados, quer para apoiar a governação (ou gestão de empresas como a Sonangol), quer para tratar dos seus próprios negócios privados. Este trabalho é feito por uma rede portuguesa de consultoras, escritórios de advogados e empresários - um universo com entradas e saídas regulares do pequeno mundo da política portuguesa.

 

Outra dependência mútua está no investimento angolano no depauperado Portugal da crise - o capital angolano, cuja distinção entre origem pública e privada nem sempre é clara, está por toda a parte. Como escreve o investigador Ricardo Soares de Oliveira em "Magnífica e Miserável: Angola desde a Guerra Civil", "em nenhum outro lugar além de Portugal, os interesses angolanos gozam de tanta influência e respeitabilidade". 

 

Este investimento, juntamente com o negócio feito em Angola, é um instrumento natural de cooptação de uma parte significativa da elite portuguesa, sustenta o investigador de Oxford - um argumento que tenho dificuldade em disputar. Esta influência vai além da economia e estende-se aos partidos políticos e outros centros de influência. Para a elite angolana, Portugal é um refúgio - um lugar familiar e onde têm laços (ao contrário do que acontece com o parceiro China), onde podem estacionar o dinheiro longe do risco do seu país.  

 

Quem, como Portas, exacerba a dependência portuguesa face a Angola - uma posição estranha para alguém que falava muito em soberania durante o programa da troika - passa deliberadamente ao lado da outra dependência, a de Luanda face a Lisboa. Fá-lo por erro de leitura - ou, tratando-se de pessoas inteligentes, porque tem interesses a defender.

 

Dirão alguns que é legítimo fazer negócios em Angola. Eu também acho que é. E que é legítimo defender o regime para defender esses negócios. Neste último ponto divergimos. Portugal não tem de se imiscuir na governação de outro país soberano - não tem de dizer aos angolanos como serem angolanos. Mas não é disso que estamos a falar, pois não? Do que falamos é do cortejo vexatório de subserviência nos últimos anos, do pedido de desculpas de Rui Machete em Luanda, em 2013, à romaria dos partidos (com honrosa excepção do Bloco) ao beija-mão ao presidente do MPLA, passando pelo receio palpável com que o primeiro-ministro e o Presidente da República comentaram publicamente o caso Luaty Beirão. 

 

É fácil perceber como, do ponto de vista moral, esta é uma posição muito frágil quando falamos de Angola. É fácil ver que o potencial de retaliação de Luanda é limitado. E é importante perceber como esta posição totalmente acrítica defende mais os interesses de alguns do que os da política externa de longo prazo de Portugal em Angola - o risco político naquele país é grande e nunca se sabe quem vai mandar depois de amanhã. Talvez um pouco mais de coluna vertebral e de inteligência estratégica não fizesse mal.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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