João Quadros
João Quadros 05 de abril de 2012 às 12:09

Paris-Telheiras

"Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce (da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores portugueses."
Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco. Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico.

Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti… Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2.000 quilómetros de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é que é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.

Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável constatar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar que os que vamos fazer durante todo o ano. Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras… fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.

Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: "tem polvo marroquino?", sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. "Queria quinhentos de polvo marroquino" - tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.

Eu, às vezes penso: o que não poupávamos se Portugal tivesse mar. Boa Páscoa.




Nota: O autor escreveu esta crónica segundo os princípios da Sexta-feira Santa: só peixe, sem referências a carne. E algum vinho…



Notícias de Marca Branca

1. Preço da gasolina voltou a subir para um novo máximo histórico: já saiu o livro "1001 aumentos do preço da gasolina que tem de ver antes de morrer".

2. A linha de bitola europeia para Badajoz que o Governo quer construir não tem continuidade assegurada no outro lado da fronteira. A partir de Sines vai ser em bitola submarina. Proponho que seja tudo em bitola Flintstones .

3. Troika não descarta corte permanente de subsídios de férias e Natal em Portugal: a troika é eterna.

4. Bruxelas quer Vítor Gaspar com mais poderes: vai ser picado por uma aranha de Fukushima.

5. Marcelo Rebelo de Sousa, no comentário semanal na TVI, acusou António José Seguro de promover uma "golpaça" com a revisão dos estatutos do PS. Marcelo está a preparar uma golpaça na Casa de Bragança.

6. Portugal atinge 35,4 % de desemprego jovem - e isto é já com o factor incluído.

7. Novo recorde no preço da gasolina: 1,764 euros /litro. A nossa gasolina deve ser o Moët dos combustíveis. Deve ser Super envelhecida em cascos de carvalho. Queremos o preço da gasolina indexado ao site do governo!



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