Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

Paulista acidental - 2

Cedo de manhã subo ao 16º andar e entrego-me a uma daquelas máquinas que nos fazem andar e correr sem sair do mesmo lugar.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 3
  • ...
É um bocado ridículo, mas dizem que faz bem à saúde. O ginásio é uma gaiola de vidro no topo do Hotel. Para qualquer lado que se olhe a cidade estende-se até à linha do horizonte. Imagino que continua para além dela. Prédios e mais prédios. Lá em baixo o movimento cresce. Na hora que dura o exercício a atividade ao nível do solo passa de agitada a frenética. Seres, do tamanho e comportamento de formigas, atravessam velozmente as ruas. Uns têm rodas, outros pernas. Cruzam-se, ultrapassam-se, chocam-se numa corrida infernal. Brotam do chão e de todos os cantos. Para onde vai toda esta gente? O que há de tão atraente numa megacidade?

São Paulo é um vislumbre do futuro. Os sinais do que aí vem estão por todo o lado. A começar pela elevada concentração populacional. Quanto mais gente vem para a cidade, mais quer vir. O planeta será cada vez mais pontuado por um conjunto de megacidades, a par de vastíssimas zonas praticamente desabitadas pela espécie humana, destinadas à agricultura ou como reservas da derradeira vida animal, dita selvagem. As cidades velhas e pequenas, como Lisboa, tornar-se-ão parques temáticos para turistas. O homem é um animal urbano. A ruralidade nunca passou de uma pré-história. As megacidades são o futuro.

As vantagens são enormes. Para a economia, para a expansão da inteligência e do saber, para a evolução da espécie humana. Também há desvantagens. A gestão de uma megacidade é impraticável. Ainda mais no habitual sistema top-down. Centralismo e planeamento não funcionam. Será preciso inventar novas formas de gestão. A cultura também não está preparada. Em São Paulo fica claro que os arquitetos não sabem projetar em altura. Dão demasiada atenção ao detalhe, ao puxador da porta, mas não conseguem gerar as novas formas que correspondem à vivência na megacidade. Veja-se, por exemplo, a questão da segurança. Praticamente todos os edifícios foram sujeitos a um upgrade do projeto original. Acrescentaram-se muros e grades. Por vezes, estas vão até andares bastante altos já que existem muitos gatunos alpinistas. Claramente os arquitetos não pensaram no assunto.

A megacidade amplifica o melhor e o pior do ser humano. No melhor, a capacidade de interação, sinergia e cooperação. A criatividade, a ambição, a inteligência individual e coletiva. No pior, o conflito, o egoísmo, a arrogância, o autoritarismo. O crime, a maldade, a alienação. Mas não cabe ser moralista. O dinamismo e a violência andam muitas das vezes de mãos dada. A criatividade e a loucura também. As megacidades são, por natureza, um lugar violento e criativo. São Paulo é disso mesmo revelador, ainda que se deva descontar a amplificação da insegurança realizada pelos media. Daí também a separação social. Que não é só de carácter econômico, mas também e muito evidentemente física. Os ricos vivem cada vez mais acantonados nos seus castelos, enquanto os pobres tentam por todos os meios assaltá-los. A guerra social é clara e objetiva. E o futuro será assim por toda a parte.

Mas a influência da megacidade nos indivíduos vai muito para lá da condição econômica. Afeta sobremaneira os comportamentos. Na megacidade a competição existencial atinge níveis extremos. Os muito pobres lutam pelo espaço mínimo de sobrevivência. Batem-se todos os dias por coisas tão primitivas como comida e cama. Os ricos acotovelam-se para garantir a visibilidade da qual, em muitos casos, dependem para se manterem ricos. Enchem os peitos de silicone e a boca de vaidades elaboradas. Nunca é fácil manter a audiência. Uns e outros, cada um à sua maneira e contexto, geram a grande amálgama de imagens que animam a vida social. Sem as historietas do desabafo da atriz ou do assassinato do momento, a vida seria insuportável para a maioria das pessoas. E é pouco provável que o futuro próximo venha a encontrar assuntos mais dignos para entreter a espécie humana. Pelo contrário, o espetáculo das vidas será cada vez mais a vida do espetáculo (como diria Debord).


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.





Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias