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Negócios negocios@negocios.pt 21 de Julho de 2003 às 11:14

Paulo Ferreira: «E no entanto, ela move-se»

A forte queda dos juros ajudou à normalização das relações entre bancos e empresas. Mas foi sobretudo a liberalização do sistema financeiro que fez com que todos vençam neste jogo.

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É costume dizer-se que o lado direito do balanço do sistema bancário (o passivo) é igual ao lado esquerdo do balanço do resto da economia (o activo), e vice-versa. Embora sofra de bastante ligeireza técnica, esta máxima vai ao essencial da questão: não há economias fortes e saudáveis com sistemas financeiros débeis.

Pode haver, momentaneamente, economias empobrecidas que alimentam uma engorda da banca. Mas essa transferência de riqueza dura pouco, porque mais cedo do que tarde as instituições financeiras acabam por pagar a factura.

Em Portugal, já lá dez anos desde a última grande discussão sobre o tema. Estávamos em plena recessão e, com o patrocínio do então ministro das Finanças, Braga de Macedo, assacavam-se culpas à banca pelo mau estado em que estavam a indústria e os serviços. Discutia-se uma suposta penalização que o sistema financeiro impunha à indústria e aos serviços, com a prática de taxas de juro demasiado elevadas nos financiamentos, que sufocavam as empresas enquanto engordavam os lucros da banca.

Hoje, a recessão voltou e com ela as dificuldades das empresas. Mas não se ouve uma palavra sobre uma suposta responsabilidade da banca no aperto financeiro das empresas. Esta pacificação, saudável a todos os níveis, não aconteceu porque os empresários são hoje menos reivindicativos do que eram em 1993. Nem porque os bancos se tornaram menos rentáveis do que eram ou porque se tenham tornado mais “simpáticos” com os seus clientes.

A forte queda das taxas de juro, iniciada com a caminhada do país para o euro, ajudou a esta normalização de relações. Mas foi sobretudo a intensa liberalização por que passou o sistema financeiro que fez com que todos saiam vencedores deste jogo.

Na última década levantaram-se as restrições aos movimentos de capitais e privatizaram-se bancos. A concorrência passou a ser efectiva e os juros praticados ganharam transparência. As margens de intermediação caíram fortemente e o sistema de pagamentos português tornou-se um dos melhores do mundo.

O sistema financeiro reagiu da melhor forma a este choque. Transformou aparentes ameaças em reais oportunidades. Reforçou-se, ganhou eficiência como poucos sectores no país e hoje compara bem com os seus congéneres internacionais em termos de boas práticas de gestão, de rentabilidade e até de solidez.

É isso, também, que nos mostra o balanço da actividade de 2002, agora divulgado pela Associação Portuguesa de Bancos. A quebra de rentabilidade, mais do que uma ameaça, deve ser vista como uma partilha de sacrifícios com os outros sectores, normal em períodos de recessão na economia e nas bolsas.

A desaceleração da actividade bancária mostra-nos que o mercado, quando regulado, é o primeiro a travar excessos e a impor correcções. E mais importante do que isso: há 10 anos, quando a concorrência era uma excentricidade na banca, as asneiras dos banqueiros eram pagas pelos seus clientes. Hoje são pagas pelos próprios accionistas. Cá está um dos poucos almoços grátis que ainda restam: a liberalização regulada.

Por Paulo Ferreira
Director-Adjunto do Jornal de Negócios
Publicado no Jornal de Negócios

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