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José Crespo de Carvalho 13 de Dezembro de 2005 às 13:59

Pedir não custa

Preocupa-me, neste Natal, que essa economia de bem, de entrega, não se una, toda ela, em torno de um projecto de ajuda económica ao nosso próprio Portugal. Aos mais de um milhão de pobres e desfavorecidos deste nosso país.

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Numa sociedade desigual, demasiado desigual, onde o Estado tem cada vez menos recursos para satisfazer as exigências de cidadania das populações, é natural que as preocupações se voltem para o designado Terceiro Sector e para o potencial de ajuda que ele encerra. O Terceiro Sector substitui-se ao Estado (Primeiro Sector) enfraquecido e contrapõe uma lógica diferenciada da dos privados (Segundo Sector). A lógica destas instituições não governamentais (ONG’s) remete para a capacidade de entrega do homem e depende da sua generosidade.

Não evita, assim mesmo, que a lógica de gestão não possa estar presente e não possa, ela mesma, conseguir melhores resultados que os que são conseguidos hoje por muito boas vontades, às vezes algum dinheiro mas muita incapacidade de concretização.

Sabendo que os recursos são limitados, que as sociedades são desiguais, que o papel destas instituições é o de repor equilíbrios ausentes numa sociedade injusta, como é possível chegar mais longe e melhor, a mais gente sofredora e desprotegida, sem usar o raciocínio da criação de valor, da retenção de valor e da distribuição de valor pelos mais carenciados? Como é possível continuar a acreditar - ingenuamente - que a boa vontade e a entrega chegam para que o mundo se torne melhor?

Porque me preocupam, então, estas instituições do Terceiro Sector se elas próprias procuram, não só no Natal mas durante o ano todo, repor equilíbrios ausentes, trabalhar em sociedades desequilibradas, oferecer um coração aberto e sincero num mundo de hipocrisias e jogos e interesses e outros que tais?

Preocupa-me a incapacidade de reconhecerem que têm que evoluir e que têm que se adaptar aos tempos para chegarem mais longe e serem mais efectivas.

Preocupa-me o facto de serem cada vez mais e mais as instituições e de estarem atomizadas, isoladas, em projectos quase individuais, hipoteticamente orgulhosos, quando seria expectável que as boas vontades se juntassem umas às outras e edificassem castelos de ajuda e não corpos minúsculos e incapazes.

Preocupa-me a inépcia de gestão dos recursos e a ignorância ao não reconhecerem que precisam de ser geridas por profissionais. Que precisam, elas próprias, de apoio e entrega e raciocínio capaz de melhor captar valor para distribuir valor.

Preocupa-me o facto de não admitirem a necessidade de organização, de liderança, de instrumentos que lhes permitam mais e melhores performances.

Das IPSS’s às Mutualidades e às Misericórdias, passando por mais de mil e um projectos que têm, nos últimos anos, aparecido como cogumelos, como se fosse moda ajudar os outros, preocupa-me a forma como se politizaram, como se tornaram projectos de ‘tias e sobrinhos’, como se transformaram em instrumentos de vaidades e disputas humanas quando era suposto servirem para ajudar os outros.

Preocupa-me, neste Natal, que essa economia de bem, de entrega, não se una, toda ela, em torno de um projecto de ajuda económica ao nosso próprio Portugal. Aos mais de um milhão de pobres e desfavorecidos deste nosso país. Que me entristecem. E que me fazem pedir a união de esforços para melhor gerar resultados. Pelos outros. Pelos que precisam, de facto, de ter Natal. E porque pedir não custa?

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