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Miguel Frasquilho - Deputado do PSD 09 de Setembro de 2008 às 13:00

Perigos estruturais e conjunturais

A economia mundial está perigosa. Quer conjunturalmente, quer estruturalmente. Há pouco mais de um ano estalou a chamada "crise do subprime", em resultado da excessiva concessão de crédito à habitação nos EUA que, em função das historicamente baixas taxas de juro e da necessidade generalizada de crescimento do volume de negócios, abarcou pela primeira vez em grande escala o segmento do crédito mais arriscado ou de menor qualidade (subprime).

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Quando as taxas de juro começaram a subir, as prestações mensais começaram a não ser pagas, as hipotecas a serem executadas, a oferta a exceder largamente a procura de habitação, os preços a descerem, os activos a desvalorizarem, os balanços das instituições financeiras a mostrarem enormes "buracos" – que ainda não pararam de ser encontrados. E assim, com a desconfiança e o nervosismo a generalizarem-se a toda a economia mundial (instituições de crédito de todo o mundo estavam expostas ao subprime, directa ou indirectamente, por via de produtos estruturados), a turbulência e a volatilidade dos mercados financeiros (que não mais acalmaram desde então, mesmo com a descida dos juros por parte da Reserva Federal dos EUA e as várias injecções de liquidez nos mercados por parte dos principais bancos centrais do Mundo) deram origem a uma certeza: ainda hoje são desconhecidas as verdadeiras dimensões do problema… que poderá estar (ainda) longe do fim. E como os mercados financeiros não lidam bem com incerteza, sobretudo quando ela é prolongada, a desaceleração/queda dos índices bolsistas na segunda metade de 2007 transformou-se em queda em 2008, e em queda acentuada a partir de meados do segundo trimestre, atingindo mínimos de cerca de 2 anos nos EUA e na Europa, e de quase 3 anos em Portugal (o nosso mercado, pelo facto de ser periférico e pouco líquido, tem sido mais castigado que a média). Um bear market parece, pois, ter-se instalado – ficando então por responder a questão: até quando durará?

Mesmo correndo todos os riscos, avanço com uma previsão: é possível que, antes de meados de 2009, a situação não seja invertida de forma sustentada… o que só deverá suceder quando os preços do imobiliário a nível global – mas, sobretudo, nos EUA – deixarem de se desvalorizar. Sendo este o activo que mais suporta, como colateral, as transacções financeiras que são efectuadas, o fim da sua desvalorização, iniciada há mais de um ano, poderá muito bem ser o sinal do turnaround…

A juntar ao fenómeno da crise do subprime (que já não seria de menos…), outro tem ajudado ao clima de instabilidade que se tem vivido. Refiro-me, claro, à alta do preço do petróleo (que continua bem elevado, mesmo com a correcção em baixa que tem vindo a ocorrer desde Julho último) e à consequente forte subida do preço dos combustíveis, que, obviamente, fez subir a inflação à escala mundial e afectou (negativamente) toda a economia global.

Mas se a crise do subprime é, em minha opinião, um fenómeno conjuntural que será resolvido mais cedo ou mais tarde (embora provavelmente mais tarde do que mais cedo), a alta do preço do petróleo – e, por arrastamento, do preço dos combustíveis – veio para ficar. Na verdade, independentemente de mais ou menos especulação à volta do preço do crude, o aumento do consumo de petróleo em países como a China e a Índia, sobretudo, mas também o Brasil ou a Rússia (os 4 formam os BRIC), resulta não só do elevado crescimento económico que estes países têm vindo a registar (para o que têm precisado de cada vez mais matérias-primas, entre as quais o petróleo), mas também da consequente ultrapassagem do limiar de pobreza por parte de centenas de milhões de homens, mulheres e crianças que, nestas nações, dispõem hoje de muito mais oportunidades de consumo e bem-estar do que há vinte, quinze, ou mesmo dez anos atrás.

Trata-se, pois, de uma alteração estrutural. É muito pouco provável que voltemos a lidar com um barril de petróleo abaixo de 100 dólares de forma sustentada (mesmo com o abrandamento que EUA e Europa estão a viver, que é bem mais do que compensado pelo dinamismo dos BRIC) – pelo que devemos aprender a viver com a "nova" e mais difícil situação.

Tudo somado, não deverão continuar a existir razões para optimismos nos próximos tempos… que, aposto, continuarão a ser difíceis.

Mas, se no caso – conjuntural – da crise do subprime, só a percepção de que "o pior já passou" poderá realmente contribuir para inverter a actual situação, já a alta do preço do petróleo – que, como já referi, tem características estruturais – pode bem contribuir decisivamente para acelerar o desenvolvimento de outras formas de energia (não fóssil) que se tornem opções verdadeiramente competitivas, a ter em conta... e que contribuam para uma economia mais saudável (em todos os sentidos).

E é por isso, caro leitor, que termino com uma nota de optimismo: se a economia mundial, seja por razões conjunturais ou estruturais, está (e vai continuar), de facto, perigosa, é nestas alturas – mais difíceis – que, como já tantas vezes sucedeu no passado, tendem a surgir melhorias e avanços que se vêm a revelar decisivos. E que tragam a bonança. Que, afinal, vem sempre depois da tempestade…

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