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João Ferreira do Amaral 10 de Janeiro de 2005 às 13:59

Pessimismo de curto prazo

Para uma economia como a nossa, a apreciação da moeda tem consequências negativas em muitos sectores de exportação quer de mercadorias quer de serviços, como o turismo.

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Não é ainda um começo de ano optimista, este.

Em minha opinião, não é a realização de eleições que está a criar um clima pouco optimista para a economia. Outras causas existem e mais importantes.

Em primeiro lugar, o mundo está em grande transformação. O comércio mundial está a sofrer uma revolução (como não sofria há muitos anos) com a entrada da China e da Índia em grande nas trocas comerciais e com a liberalização do comércio decidida nas últimas negociações do GATT (1994) e que este ano se efectivou na sua última fase (pelo menos no que diz respeito à União Europeia). Embora esta fosse já uma evolução conhecida e o respectivo impacte previsível desde há dez anos a esta parte – não faltaram, aliás, avisos sobre a matéria – não há como as empresas sentirem verdadeiramente os seus efeitos para tomarem consciência dela. Por isso é natural que as incertezas devidas a estas mudanças forçadas não sejam propícias a um clima de optimismo – ainda que, do meu ponto de vista, a prazo, as consequências desta evolução venham a ser benéficas. Mas no curto prazo, falências no sector têxtil e noutros de mão-de-obra menos qualificada e aumento do desemprego serão quase inevitáveis.

Uma segunda causa é bastante mais negativa, porque mesmo a prazo não terá boas consequências. É a excessiva apreciação do euro em relação ao dólar, que não tem a ver propriamente com uma melhoria da economia europeia mas antes com os défices (público e comercial) dos EUA.

Considero extraordinário que alguns embandeirem em arco com esta apreciação, badalando aos quatro ventos que o euro se vai tornado cada vez mais uma moeda de reserva mundial e que isso é óptimo. Óptimo não é com certeza, mas o que é certo é esta afirmação ser um perfeito disparate. Para uma economia como a nossa, a apreciação da moeda tem consequências negativas em muitos sectores de exportação quer de mercadorias quer de serviços, como o turismo. E não há a mínima vantagem em que o euro se mantenha elevado só para ser uma moeda de reserva. Muito legitimamente os empresários se preocupam com a cotação do euro. Não sabemos se vai continuar alto em relação ao dólar. Esperemos que não. Mas se tal suceder ou se aumentar ainda mais podemos certamente contar com uma grande machadada no nosso já debilitado sector de exportação e até mesmo nos sectores que vendem para o mercado interno em concorrência com produtos importados.

Finalmente, uma terceira causa para pouco optimismo tem a ver com as contas públicas. Na realidade, o défice real de 2004, seja 5% ou mais do PIB, coloca à partida um problema quase insolúvel para quem formar governo, que é o de conter em 2005 o défice nos 3% do PIB com esta herança do ano passado. O quer que se faça para conter o défice terá, no curto prazo, incidências negativas na actividade económica, seja aumento de impostos seja reduções de despesa. Claro que a prazo esta consolidação será benéfica (tal como será benéfico o alargamento do comércio internacional) mas a curto prazo não é factor de optimismo.

Ou seja, as perspectivas para 2005 não soa boas. Mas se soubermos actuar numa lógica de responsabilidade, quer no que respeita à competitividade externa, quer no que respeita às finanças públicas, então podemos estar confiantes que melhores dias virão.

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