Eva  Gaspar
Eva Gaspar 04 de julho de 2013 às 00:01

Pior que gregos

Com Portas a ameaçar fazer cair o Governo, os mercados levaram oito horas a atirarem Portugal oito meses para trás.

Vítor Gaspar saiu prematuramente do Governo depois de ter dado de si e dos seus muito mais do que o investimento que o país terá feito na sua educação. Gaspar saiu dizendo acreditar que sem ele a coligação seria menos bamba. Paulo Portas resistiu menos de 24 horas num Governo sem Gaspar. Terá tomado a decisão de forma tão apressada que se terá esquecido de avisar Paulo Núncio que estava de saída por causa da nova ministra para a qual o secretário de Estado do seu partido ia trabalhar. 


Com Portas a ameaçar fazer cair o Governo, os mercados levaram oito horas a atirarem Portugal oito meses para trás. Os juros da dívida dispararam acima da barreira de 7% que ficou associada aos resgates no euro. Não estava perto, mas com esta crise política Portugal ficou objectivamente mais longe de ter um Governo a quem os portugueses possam pedir todas as responsabilidades. Porque recuperar soberania ficou ainda mais distante, porque mais distante ficou o horizonte em que o país conseguirá financiar-se plenamente nos mercados – e quem não consegue meios para se bastar, tem de se bastar com os meios e as condições que lhe são impostos de fora.

Para manter a luz acesa, o país poderá ter de voltar a pedir abertamente mais dinheiro ao FMI e aos outros países do euro, em vez de ser financiado mais discreta e parcialmente pelos mecanismos europeus com a ajuda do BCE, num programa cautelar. Nesse dia, seremos todos menos que gregos – menos, porque estaremos pior do que eles. Um segundo empréstimo da Zona Euro e do FMI será negociado em Portugal com ainda menos estados de alma, e será acompanhado da imposição de perdão de dívida pública que, estando hoje quase toda em mãos de Estados, afectará os contribuintes dos países que entraram no primeiro empréstimo (alemães à cabeça) mas também os bancos portugueses: os três maiores privados (BES, BPI e BCP) têm 15 mil milhões de euros de dívida pública portuguesa em carteira. Os "rating" vão cair abaixo do sub-solo, o leito do crédito às empresas ficará ainda mais seco, mais esqueletos sairão da banca. Quem espera flexibilidade acrescida da troika neste contexto, olhe para a Grécia, olhe para a reestruturação à bruta da TV estatal, e desengane-se.

Nesse dia, a reforma do Estado, eufemismo para redução drástica e permanente dos gastos públicos, será ainda mais inadiável. Nesse dia, o "monstro" que o ministro demissionário de Estado Paulo Portas dizia querer reformar aparentemente sem mexer demasiado em coisa alguma só vai sobrar para outro. Nesse dia, os portugueses vão ter de se confrontar com o "enorme desvio entre o que acham que devem ter como funções do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar" (Vítor Gaspar, 24/10/2012). "Talvez agora todos estejam mais conscientes das exigências que circunstâncias tão complicadas como a nossa impunham" (Pedro Passos Coelho, 2/07/2013).

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