André Macedo
André Macedo 18 de fevereiro de 2018 às 22:15

Podemo-nos comparar com a Irlanda?

Durante 2017 e 2018, apesar de o PIB manter-se sempre acima dos 2% - uma excepção ao longo destes 17 anos de moeda única - haverá sempre mais países a criar mais riqueza do que Portugal. Como devemos olhar para esta diferença?

Portugal cresceu mais do que a média ponderada da zona euro em 2017 e este ano a previsão aponta para um resultado inferior, embora haja análises que consideram a estimativa prudente ou então politicamente calculada, deixando espaço para que Governo assuma uma revisão em alta por volta do terceiro trimestre, colhendo assim os frutos fáceis da árvore das patacas: um par de décimas a mais são um tónico não desprezível. Foi o que aconteceu em 2017. Chama-se a isto gerir as contas e as expectativas, dois azimutes que convém manter sempre bem alinhados.

 

Política e economicamente é sempre melhor contar com menos e ter mais do que o inverso. Em tempos, esta abordagem orçamental de perfil mais conservador seria até considerada prudente e, portanto, a mais correta, já que ela contém em si própria o travão natural que evita o excesso inicial de despesa não sustentada em receita, precisamente um dos grandes pecados das finanças públicas portuguesas.

 

Como bem sabemos pela prova que resulta dos exercícios anteriores, esta diferença entre o que se julgava possível (mais e, às vezes, muito mais) e o que se conseguiu no final do ano (menos e, às vezes, muito menos) repercutiu-se logo nos valores do défice público, exigindo medidas de última hora castradoras do crescimento - menos investimento e até cortes na despesa operacional dos vários ministérios -, ou então aumentos de impostos nos anos seguintes para tentar compensar o pecado original.

 

Dito isto, volto ao ponto inicial. Durante 2017 e 2018, apesar de o PIB manter-se sempre acima dos 2% - uma excepção ao longo destes 17 anos de moeda única - haverá sempre mais países a criar mais riqueza do que Portugal. Como devemos olhar para esta diferença? Sendo verdade que no ano passado houve convergência com a média da zona euro, não deixa de ser verdade que a comparação país a país não nos foi, em regra, favorável, o que obrigatoriamente nos deve levar a procurar as causas e as soluções.

 

Ontem, Rui Rio indicou alguns caminhos possíveis que devem ser avaliados - o PSD está de volta à discussão nacional, o que só pode ser bom -, mas é conveniente ter noção do seguinte. Primeiro, não haverá nenhum milagre económico nos próximos anos, seja com o PS ou o PSD ou seja com quem for. Todo o trabalho sério levará tempo. Segundo, nada pior do que começar a discussão com uma pincelada de demagogia.

 

O atraso do país vem de trás, não é de hoje. Hoje há, sim, coesão social suficiente, graças ao PS, e alguma ordem orçamental, começada com o PSD/CDS, sobre a qual pode ser construído o resto. Não faz sentido comparar o crescimento de Portugal em 2017 e 2018 com o da Irlanda, fortemente robustecido e distorcido pela presença de multinacionais que não criam nem deixam verdadeira riqueza no país. Também não faz sentido comparar com o salto de Espanha, que não sofreu nem de longe nem de perto um resgate tão violento como o nosso - aliás, não sofreu resgate nenhum, mas obteve, sim, um empréstimo. Quanto ao Chipre, estamos a falar de um país com um milhão de habitantes onde tudo é volátil e, portanto, não comparável.

 

Ou seja, medir Portugal tendo por base estes países resgatados (e nem todos o foram...) exige pelo menos algum comedimento. Se a virtude está no equilíbrio ou no centro, como acredita Rui Rio, então que se procure mudar a realidade no concreto em vez de a torturar logo à partida. Mais descentralização, mais economia privada... o cardápio de políticas públicas é conhecido. Comecemos por aí. Laranjas comparam-se com laranjas. Rui Rio não é Passo Coelho.  

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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