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Robert Skidelsky - Economista 26 de Janeiro de 2016 às 20:30

Políticas europeias com rosto islâmico?

Os liberais não se preocuparam com a demografia étnica, porque assumiram que os indivíduos eventualmente iriam identificar-se com as normas da sociedade receptora.

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O apelo de Donald Trump para que fosse barrada a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos provocou a seguinte troca de impressões com dois jovens amigos: "Se a escolha fosse entre a imigração de muçulmanos e a preservação de valores morais liberais", perguntei, "qual vocês escolheriam"? Ambos negaram a premissa da questão. Os próprios imigrantes, sugeriram, poderão ter os seus próprios valores morais reaccionários, mas os seus filhos, crescendo no actual Reino Unido, Estados Unidos ou Europa Continental, serão bastante diferentes. Mas será isto verdade?

 

A minha pergunta não estava focada no terrorismo islâmico – a ostensiva base da proposta de Trump – mas na ameaça que a imigração muçulmana em larga-escala coloca ao código moral que estes meus jovens amigos, tal como os europeus com maior grau de educação, aceitam sem questionar. Terrorismo aparte, não ficariam ele preocupados se o islão obtivesse uma influência crescente na lei e política britânicas?

 

Esta não é apenas uma possibilidade hipotética. A população muçulmana na Europa era de 44,1 milhões em 2010, ou 6% do total. Havia 2,7 milhões de muçulmanos no Reino Unido em 2011 (4,8% da população), face aos 1,6 milhões em 2001. Tendo em conta a recente tendência da imigração e, mais importante, a taxa de fertilidade acima-da-média dos muçulmanos (três filhos por família face à média britânica de 1,8), a parcela de muçulmanos na população do Reino Unido deverá crescer nas próximas décadas.

 

Grande parte da Europa está perante a mesma trajectória demográfica. Claro está que a demografia não é uma ciência exacta: Muito depende de assunções sobre perfis etários, padrões de vida, desigualdade, e por aí fora, e mais cedo ou mais tarde a taxa de fertilidade da população muçulmana irá convergir com a média nacional. Mas nessa altura, a população muçulmana já se terá expandido rapidamente – para 10%-20% do total no Reino Unido. A questão interessante reside nas consequências disto.

 

Os liberais não se preocuparam com a demografia étnica, porque assumiram que os indivíduos eventualmente iriam identificar-se com as normas da sociedade receptora. O argumento padrão é o de que os imigrantes enriquecem o país de acolhimento, deixando as características incompatíveis no país de origem. Em particular, acreditando que o seu comportamento político vai aproximar-se do da população em geral.

Se isto está certo, o impacto sociopolítico da mudança da composição étnica da população é neutral, ou até benéfico. Imigrantes da Argélia, Bangladesh, Paquistão ou Turquia, vão, no período de uma ou duas gerações, tornar-se europeus em mentalidade e na política. A sua religião vai passar a ser uma questão do foro privado, tal como o é hoje para a maioria dos europeus, e eles vão integrar-se em todas as questões importantes.

 

Mas este padrão histórico, na minha perspectiva, depende de forma crucial de uma pequena dimensão da população imigrante e da proximidade cultural desta em relação à população do país receptor. (Mesmo assim, o processo de assimilação ficou longe de acontecer sem fricções). A experiência histórica garante uma reduzida perspectiva sobre as consequências sociais e políticas dos grandes números e sobre as diferenças culturais em jogo nas migrações para a Europa no período pós-guerra, especialmente do mundo muçulmano. As incompatibilidades são muito maiores.

 

O cerne do problema é que a civilização europeia contemporânea é secular, enquanto a civilização muçulmana é religiosa. Na Europa, a religião perdeu a autoridade para a lei, legislação, educação, moral e vida económica. O mundo islâmico experimentou um processo incomparável. Não existe uma separação sistematizada entre fé e Estado; a família, não o indivíduo, continua a ser a unidade social básica. Os elementos essenciais da vida política moderna europeia – direitos e deveres individuais, e a responsabilização do Governo pelos governados – estão em falta, particularmente no Médio Oriente árabe.

 

Apesar dos esforços em relação à secularização, a distância entre a mentalidade muçulmana e ocidental cresceu nos anos recentes, com a religião a reconquistar ascendência na maioria dos países muçulmanos. A lei islâmica (sharia) – cujas versões mais extremas punem condutas descriminalizadas no Ocidente, tais como o adultério ou a homossexualidade, com pena de morte – influencia os seus códigos legais. Além disso, em muitos países a maioria dos muçulmanos diz que a sharia deveria ser a lei oficial.

 

Na Europa, o islão é a religião que cresce de forma mais acelerada, e a sharia penetrou nos sistemas legais europeus. No Reino Unido, uma centena de tribunais julgam através da sharia divórcios e outras questões familiares, o que levou a secretária de Estado para os Assuntos Internos, Theresa May, a prometer analisar os tribunais da sharia "para determinar se são compatíveis com os valores britânicos".

 

A secularização não é inevitável. Tal como sustentou o filósofo Larry Siedentop, "a secularização é o presente cristão para o mundo". De acordo com Siedentop, características específicas do cristianismo levaram ao individualismo liberal, e essas características estão ausentes das outras grandes religiões mundiais.

 

O grande presente do secularismo tem sido, por seu turno, a tolerância. Apesar do horrível recuo a que se assistiu na Europa no século XX, o secularismo serviu para cortar a extremidade da intolerância, porque o raciocínio secular, ao contrário da revelação divina, nunca foi conclusivo.

 

Os economistas encaram a migração como um movimento de indivíduos à procura de uma vida melhor e pedem mais imigração para compensar o envelhecimento populacional ou para assegurar trabalhadores para o "trabalho sujo". Mas tais evocações do "homem económico" falham uma dimensão-chave da migração: As pessoas trazem as suas culturas com elas para lá das fronteiras políticas. Nós não deveríamos assumir que o sucesso económico leva automaticamente à convergência cultural.

 

Isto traz-nos de volta a Trump. O que quer que aconteça nos Estados Unidos, a imigração muçulmana para a Europa vai continuar e até mesmo expandir-se nos próximos anos. A catástrofe síria assegura, por si só, isso mesmo. Tudo aquilo que o diálogo e a educação possam fazer para diminuir a distância entre imigrantes e as comunidades de acolhimento deve ser feito. Mas poderá não ser possível prevenir um regresso às políticas assentes nas crenças religiosas – e ao conflito que o fanatismo religioso acarreta. Se pretendemos evitar caminhar sonambulamente para um futuro altamente problemático, temos de reconhecer que a integração fracassada, e não o terrorismo, é o maior perigo que enfrentamos.

 

Robert Skidelsky, membro da British House of Lords, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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